sexta-feira, 21 de setembro de 2018

às cegas

eu sei, nem tudo vejo
eu sei, nem tudo ouço

mas há em mim
um desassossego

que da pele
arrepia as células

que da alma
quedam esperas

e ainda que não queira
...escrevo...

terça-feira, 8 de maio de 2018

naufragio

ando um tanto despedaçada
mais, bem mais do que  já sou
vejo aqui e acolá cacos e cascas
esgueirando-se em palavras

finjo nāo ser capaz
de em silêncio juntar meus ais
finjo que não gosto de observar
minhas feridas em varais

e essa veia masoquista
de tecitura e tez de mim, debocha
gargalhando e pedindo para
minhas lamurias, um cais

e eu, de mal com as naus
sigo à deriva, num caos...

quarta-feira, 18 de abril de 2018

do julgo

num findo crepúsculo
tantas vozes, tantas aves
mergulham mais fundo

não fossem as rezas
não fossem os crédulos

com outras asas
com outros olhos

alçariam uma fuga

segunda-feira, 26 de março de 2018

assepsia

preciso fechar
portas e janelas

cuidar de
minhas feridas

sem que
amanhãs e hoje

adentrem
pelos meus olhos

e açoitem meus ossos
e minha poesia

domingo, 18 de março de 2018

veredicto

queria ter ido
queria ter cortado
o cordão do meu
umbigo

mas ainda é domingo
e domingos pedem útero
de mãe

e eu
fico...

sexta-feira, 2 de março de 2018

amputações

ah, esses bastidores...
de quantas drágeas necessito
para enterrar o que não existe?

desejo o sono
desejo o sonho e não
encontro-os

nada há
além da carne e dos ferros
que me acompanham

e ainda dizem
serem fantasmas
as minhas dores...

domingo, 25 de fevereiro de 2018

enfim...

eu sei
eu te disse que
não olharia
para trás

mas hoje
seu rosto
no retrovisor
tanto faz

e não dói mais...

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

provocações

há vícios abertos
à espera das entrelinhas
dos versos, só para
exibirem-se aos olhos
da poesia

e por um momento
sentirem do poeta
os dedos, os ossos
as veias, a carne e
os gestos...

e depois...
depois cuspirem
ao chão suas cascas
suas casas e suas
palavras

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

indulto

diz-me
em que momento
deixaste de ser
doce e único

diz-me para que servem
essas tantas janelas tuas
se nenhuma te mostra
minhas angustias

diz-me porque
usar de simulacros e dúvidas
se podes pousar teus olhos
em meu luto

diz-me
sem medo, sem censuras
onde escondes teu vulto
e minha cura...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

quimera

quem dera despertar
do outro lado do jogo
sem medo e cara a cara
com o novo...

não quero mais
obedecer aos meus pés
não quero mais
calçar o que não me cabe

quero parir navalhas
e arrancar da carne
a subserviência das
pedras...