domingo, 14 de fevereiro de 2021

das estradas

 te vejo passar por mim

em cada "não" por mim tocado

te vejo longe de mim

em cada "sim" enterrado


tinha de ser assim, eu sei

ser maria, ser ave, ser vazia

uma reza sem crença, sem asas

na carne, enclausurada...


mas, às vezes, me pergunto:

você sabe?


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

das estações

 incomodam-me os cabelos

fio a fio a puxarem-me os freios,

o outono, lembra-me e lambe-me

sem pudores, sem pedir passagem

sem verões e sem receio


há cinzas entre a primavera de ontem

e o inverno que ainda por inteiro, não veio,

e se o amanhã já se diz tarde 

invento uma fuga, uma dúvida

e do hoje escondo o espelho


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

verbo

 necessito da tua página em branco

feito água e terra nas mãos de deus

a te fazer barro e te fazer palavra 

feito  consoante e vogal  a espera

de um sopro meu


e se te necessito e te nego

desconjuro, blasfemo e peco

só para que meus joelhos se quebrem

por um caco, por um pedaço

que sejam teus...


terça-feira, 20 de outubro de 2020

semente

 enquanto movem-se as cortinas

num desejo de voar pelos ares

seguem meus olhos o mesmo desatino

querer dos varais que me prendem 

cortar as farpas e as amarras


num voo silente e solitário

alçar as nuvens, os pássaros

os poços, os abismos, os faróis

as sarjetas, as estrelas, o sopro

a lama e a palavra


arrancar do peito e do nada

a navalha que tece no vácuo 

os nomes dos bois, os nós das artérias

o esconderijo dos fetos

e fazer-se verbo....



sábado, 17 de outubro de 2020

limites

do outro lado dos dias

ficaram os êxtases, os suspiros, 

as rosas e as lágrimas


chorar não era de todo ruim

era como trair a assepsia  e a prosa

e render-me à dor e à cor da poesia


e seus sins...


desse lados dos dias

as palavras sem carne, insossas

riem anêmicas e com fome 


de mim...

terça-feira, 13 de outubro de 2020

rotina

 todos os dias

os matizes que me anelam os passos

lembram-me que preciso

de metamorfoses...


todos os dias 

ao arrancar os olhos

de minhas selfs, esqueço-me 

de minhas premissas


e sigo, arrastando de novo

e de novo minhas cinzas...


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

fugaz

 ah, essas vozes que pulam os muros,

mais do que sussurros e tão cheias de lonjuras

carregam em seus colos faces deixadas

em calendários tão idos...


chegam-me feito crianças 

querendo olhos de mãe

e chegam-me feito adultos

cheios de luxúria


e me desnudam...

sábado, 10 de outubro de 2020

ausência

eu devo pagar o preço
do ócio, do abandono, do desprezo

e mereço, o virar das costas
do presente, da paciência, dos desejos

e todas as pedras que sinto
ao me fingir de morta e me vem a esmo

sim, mereço
sim, pago o preço

e feneço

depois...
se tiver a verve ainda acesa

volto ao recomeço

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

56

 junto com as  aves

as cores, as marias, as regras

crepúsculo reza

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

55

o  sol inclemente
sem nuvens para descanso
brilha em sua vingança

e arreganha os dentes...