quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ninho

devagar
os olhos fecham-se

o estômago
pesa

cansada de viver
do lado de fora

a palavra
encolhe-se...

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

parêntesis

fico esperando
que algo aconteça

que meus olhos
adormeçam

e minhas mãos
floresçam

ilusão...

tudo é pêndulo
um vai e vem

pratos, prantos, apêndices
partos, palavras, reticências

aparências....

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

névoas

horário de verão
e tantos sóis atrasaram-se
o de ontem, o de hoje
o de amanhã

só essas cortinas
nunca faltam, nunca calam-se
nuas, esguias, de pernas,
de mãos, de línguas

exibem-se...
crescem
proliferam-se
ferem

de fera, de fé
de faca, de faces
de falácias
engolem meus olhos
minhas janelas...



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

dolo

por um momento
foi corpo, alma
e gozo

depois...
desejou
outro poema

juntou as tralhas
a saliva , as palavras
levantou voo

fez-se
aborto

sábado, 10 de setembro de 2016

entre tantos...

tenho
em mim
tantos cansaços...

eu tento
juro que tento
afugentá-los

mas, uns encontram-me
e em outros eu mesma
encaixo-me

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

será?

a lastro
a rastro
no lustre
no lume
na lua

pensamentos
imagens, estilhaços
feito linha, botão
tecidos, rendas
e agulhas

alinhavo
rasgo, corto
costuro,
escavo
abotoo

há quem diga
que são entrelinhas
metáforas, palavras
com ou sem rimas
poemas, poesias...

sábado, 3 de setembro de 2016

costume

quando
despertenço-me
de longe vejo
meus óculos
meu ópio...

sei
onde
erro o berro
e dos tropeços
em sarjetas

mas
de lá eu volto
à cata dos mesmos
vícios e olhos
e perco-me...

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

reflexo

tantos espelhos
e nenhum deles
me condiz

procuro e procuro
não encontro neles
minhas pústulas

nem nas rusgas
nem nas rugas
nem nas fugas

e elas existem
ainda que nos fósseis
de minhas cicatrizes

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

desgosto

agosto
despede-se
sem voos

marcado
feito gado
no pasto

com
cheiro e gosto
de podre

mas há
sempre há
quem goste

e goze...

tara

a palavra
que a boca
cala

é faca
que a carne
talha...