domingo, 2 de agosto de 2015

sombras

há de arder
entre os dentes
a palavra
semente

tímida
de ser ouvida
instigar-se
entre os dedos

fingir-se
um verso
um espectro
uma névoa

tocar-te
o arrepio, a pele
os nós
os pés

fazer-se
penumbra
penugem
nuvem...

envolver-te
sem que saibas
de onde vem
tuas vertigens

e amar-te
entre ais
em segredo
uma vez mais

sábado, 1 de agosto de 2015

parto

se queres partir
parta

parta
como filho escorrido
em meio às coxas
sem ser parido

se queres partir
parta

parta
como membro amputado
em meio às valas, sem nome
sem lápide

se queres partir
parta

parta
como um erro drenado
em meio às facadas
das palavras

gorjeta


e na sarjeta
no vai e vem
dos pés

caem
no chapéu
da poesia

mil e
uma letras...

quinta-feira, 30 de julho de 2015

devaneio

hoje seria bom
rever seu retrato
acolher seu abraço

mas tudo que ficou
foram as tais palavras
na garganta, asfixiadas

e uma cova
que não é rasa...

quarta-feira, 29 de julho de 2015

rasuras...


foram tantas
as rupturas

que de buraco
em buraco

fez-se lua...

pintou das feridas
as unhas

escovou dos cabelos
as ranhuras

exibiu-se, nua...

terça-feira, 28 de julho de 2015

!

Onde andará minha prosa? Nos ralos dos vocábulos, nas celas das letras, nos catres das metáforas? Oh, céus, como sou repetitiva, teimo e teimo e deito-me com poemas. Como sou previsível, em versos criei raízes.

Lembro-me de um tempo de sol, de um tempo de solos, de um tempo de rosas tão azuis. Ou seria esse tempo dos olhos teus que eram mais jazz que blues? Ou seriam os olhos meus mais devotos da tuas heresias do que os teus  das minhas?
Ah, como fere o escuro que vêm sem avisos,  como ferem as covas que vêm transbordando escarnio... E ainda assim ou assado,  sou de mim a maior carrasca. Acho graça das minhas desgraças.

E digo e repito: Tudo passa, tudo pássaro, tudo asas... Palavra.
Verborragia... E cinicamente volto à poesia.

fugaz


porque
se  tudo é tão efêmero
ora choramos o espelho
ora rimos do vermelho

améns. aquéns, aléns
do lado de fora ou de dentro
unhas, cabelos, vento e borboletas
um tanto faz ou tanto fez...

e se nada faz sentido
nadamos contra a correnteza
ninando e beijando nossos medos
aqueles à espera de um remendo

ser pescador ou sereia
antídoto ou veneno
criança ou brinquedo
tudo é questão de tempo...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

fragmentos

no espelho
dos meus óculos

tantas almas sem arestas
tantas mentes de joelhos

e a sensação de precisar
de novas lentes...

quarta-feira, 22 de julho de 2015

sábado, 18 de julho de 2015

destino


mãos homicidas
de poesia em poesia
matam a fome e a sede
de palavras suicidas

levantam as saias
abusam das metáforas
e ainda riem dos tolos
crentes em disfarces

não há de ser pouco
o instinto dos dedos
à procura de lâminas
na ponta do lápis

não  há de ser muito
o êxtase dos cortes
nas linhas das palmas
que drenam as almas

é sempre do bis
o açúcar e a bílis
no verso que repete-se
em busca da morte

e morre
mas volta...