sexta-feira, 27 de março de 2015

silente

por um motivo
ou por outro

respiro
respondo

grito
teço pontos

mas, é no silêncio
onde encontram-me

quarta-feira, 25 de março de 2015

queda

se vem do paraiso
se é cíclico
se é circo

o que sei do riso?

se a mim foi dado
o gosto pelo limbo
esse fetiche bíblico

onde Rimbaud
fez morada em
sua temporada

onde palavras
escarram sangue e
da morte vivem

ah, dispenso o riso
esse espelho que
nada diz

sou mais a queda
o corte, o deboche
sem remorsos....

terça-feira, 24 de março de 2015

ah, tá...


e aquela roupa
no fundo da gaveta

acusa-me
de não mais servi-la

não combinam
meus olhos com sua estampa

não casa-se meu número
com seu excesso de faltas...

oras,  e esse cheiro
de naftalina?

e essa cor
de verde bolor?

não são meus
os teus fechados botões

não é meu o pânico
por debaixo dos panos...

segunda-feira, 23 de março de 2015

prêsas

há sempre
um pedaço faminto
de mordidas alheias

sem medo
de arrancar a pele
e esfolar as células

o que fere
são as algemas, as grades
as celas,

e não as feras...

sexta-feira, 20 de março de 2015

inutilmente...



e quantas
frases feitas
vazios enfeitam

pelas frestas
feito lagartixas
passeiam

num mero deleite
espicham-se fora das brechas
exibindo seus dentes

penduradas nos lustres
nas paredes, nas saias,
nas luzes

num esforço
de serem vistas
além de um clique...

e livrarem
olhos inertes de antigos
cabrestos...


terça-feira, 17 de março de 2015

ímpar

às vezes é no egoísmo
do casulo, de asas recolhidas
ao próprio útero sem feto
onde encontra-se a saída

se não pelos olhos
em líquido abortivo de idas
pelas mãos crispadas
e boca e lábios em nãos

o que importa o outro
se não admira em nós, o louco?
o que importa o outro
se não rói de nós, os ossos?

ah, melhor e melhor o vazio,
o abismo, o absinto, a estrecnina
germinar e morrer sem rimas...

segunda-feira, 16 de março de 2015

help

em tempos
de instagram e facebook

à cada selfie no espelho
narciso é só sorriso

e nem vermelho
fica...

sexta-feira, 13 de março de 2015

abuso...

porque na poesia
encontrava, o perdão
e o crime

usava-a

antes e depois
de cara lavada
de cara pintada

em versos
cegos, em navalhas
póstumas

em carne viva
em cortes tantos
em feridas prontas

e sangrava

segunda-feira, 9 de março de 2015

asfixia


olhos e boca
vedados...

e tantas palavras
do lado de dentro

morrem entre
o umbigo e a garganta

sábado, 7 de março de 2015

entrelinhas...

de todas
as sombras
a tua
não cala-se,
se aperto
o verso
se esmago
alhos
se finjo
ter palavras

está lá
está cá
agachado
por trás
das frestas
espichado
no tapete
da sala,
nos olhos
do gato

são
teus olhos
negros
suas mãos
em luva,
sua boca
em riste,
e a mesma
pergunta,
em stacato...