sexta-feira, 13 de março de 2015

abuso...

porque na poesia
encontrava, o perdão
e o crime

usava-a

antes e depois
de cara lavada
de cara pintada

em versos
cegos, em navalhas
póstumas

em carne viva
em cortes tantos
em feridas prontas

e sangrava

segunda-feira, 9 de março de 2015

asfixia


olhos e boca
vedados...

e tantas palavras
do lado de dentro

morrem entre
o umbigo e a garganta

sábado, 7 de março de 2015

entrelinhas...

de todas
as sombras
a tua
não cala-se,
se aperto
o verso
se esmago
alhos
se finjo
ter palavras

está lá
está cá
agachado
por trás
das frestas
espichado
no tapete
da sala,
nos olhos
do gato

são
teus olhos
negros
suas mãos
em luva,
sua boca
em riste,
e a mesma
pergunta,
em stacato...

quinta-feira, 5 de março de 2015

retalhos...


tão meu esse vácuo
que nele para outros seres
não há espaço

tão fundo meu céu
que nele abortam-se e morrem
dos sonhos, os olhos

tão oca minha morada
que nela costuro e colho
as blasfêmias do meu epitáfio

tão frio o meu inferno
que nele estendo meus dedos
e incinero-os ao gelo

tão solitário o meu grito
que nele, letras e palavras
comem e bebem, raizes

quarta-feira, 4 de março de 2015

ingrato...


quando penso
que do poema
tenho a posse

rebelde, ele,
de mim, debocha
ri, foge...

em outras mãos
faz-se pureza e luxuria
dá-se ao uso

e goza...

segunda-feira, 2 de março de 2015

dos encaixes...

tateia a poesia
uma fuga

simples
complexa

em linha reta
em linha curva

côncava
convexa

escorre entre coxas
dobra os joelhos

e...
urra

sábado, 28 de fevereiro de 2015

pós...


quando as dores passam
há um enlevo, um remanso

olhar para trás sem querer
o que não houve, o que não há

na volta da visita à terra de Dante
arde a pele por ter beijado o  limbo

sem da comédia
o divino provar

alívio de sangrar
e em poesia, coagular...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

dos engôdos...


se soubesse
de que antros
nascem santas

não desejaria
das flores de março
palavras mansas

se soubesse
de que sarjetas
nascem anjos

não buscaria
no vil da poesia
um doce encanto

se não sabes
se não vês
cala-te

é de mais valia
cego, surdo e mudo
abraçar uma ave-maria

e ajoelhar-se à hipocrisia...


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

asco

velhos ganchos
velhos garranchos

velhos escarros
velhos catarros...

cansaço
cansaço

não quero
castas e belas  palavras

quero arrancar línguas
de vermelhos semáforos

vomitar em olhos alheios
cínicas e vis metáforas


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

das luas...



num repente
sentia vertigens

eram pés demais
carregados de ferrugem

livrar-se deles
era questão de nuvens...

volitar rente aos céus
feito pipa sem fio de carretel

e uns olhos aluados
agarrando nuncas