quarta-feira, 22 de outubro de 2014
do abandono...
e ladram
e cansam-se
e calam-se
não querem palmas
não querem pedras
um ou outro afago
um bocado de água
comida no prato
tão pouco
tão nada
aos cães abandonados, basta...
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
ponto a ponto...
o que é lusco
o que é fusco
busco
o que é torpe
o que é torto
recolho
passos, laços
nacos, pedaços, ferrugens
ferrolhos
aqui e ali
na ponta da rima
cacos costuro
sábado, 18 de outubro de 2014
das profecias...
"dizei uma palavra
e serei salva"
do sangue
o mistério
das linhas
a palma
da lança
o alvo
da poesia
a pele
da carne
a alma...
e serei salva"
do sangue
o mistério
das linhas
a palma
da lança
o alvo
da poesia
a pele
da carne
a alma...
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
sábado, 4 de outubro de 2014
com tato...
um véu
rente aos céus
de azul lampejo
de vermelho medo
a pedir aos dedos
boca, língua e beijos...
um véu
rente ao mel
de branco segredo
de verdes desejos
a pedir às letras
gosto, toque e cheiro...
rente aos céus
de azul lampejo
de vermelho medo
a pedir aos dedos
boca, língua e beijos...
um véu
rente ao mel
de branco segredo
de verdes desejos
a pedir às letras
gosto, toque e cheiro...
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
né?
tudo o que queria
era um pouco de açúcar
um pedaço de pão
e uma pitada de sal
café com leite, arroz, feijão
tomate, couve e almeirão
uma cama, um fogão
livros e mais livros
água doce
e roupa no varal
para companhia
um cão, um gato, uma galinha
um punhado de siêncios
e muita poesia...
era um pouco de açúcar
um pedaço de pão
e uma pitada de sal
café com leite, arroz, feijão
tomate, couve e almeirão
uma cama, um fogão
livros e mais livros
água doce
e roupa no varal
para companhia
um cão, um gato, uma galinha
um punhado de siêncios
e muita poesia...
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Das culpas...
As rodas comiam o asfalto com fome e com pressa. A noite favorecia aos devaneios, o motorista ao meu lado, tão conhecido por mim, fazia a troca de marchas sem piscar, sem pestanejar. Engraçado, em raras situações eu sentia que sua mente esquizofrênica dava-lhe paz, dirigindo era uma delas.
Talvez pela configuração dos signos, a minha trouxe-me essa empatia, essa intuição que me assola, que me castiga, que me tortura. Poucas são as pessoas que fito, que observo e não consigo vislumbrar suas essências, diria que são quase exceções.
Existem homens com desejos tantos, com fetiches tantos, com gestos tantos e inimagináveis, a literatura, a internete estão recheadas deles. Mas ainda não li, não vi, alguém que fosse fissurado no toque puro e simples de um nariz. Sim, era esse o maior gesto e a maior prova de amor do homem ao meu lado. Entre um quilômetro e outro estendia sua mão ao meu rosto e seus olhos tocavam os meus. E me diziam do prazer de me sentir de me perceber ao seu lado através de um toque em meu nariz. Havia dias que me ressentia, doia-me o bendito nariz. Por quantos anos isso? Muito e muitos, brincava e sorria me dizendo que só eu lhe proporcionava esse prazer, os outros narizes não eram o meu. Quando o evitava, quando evitava seu toque, era como tirar-lhe o sentido das mãos, cortava o cordão umbilical que nos unia.
E ali estávamos, os dois embalados por Beatles, sempre Beatles. Ele, conhecia todas as músicas, tocava-as todas. E hoje, qualquer menção de Lennon, Paul, Ringo, George me levam ao passado. Tantas coisas me levam ao passado. Como se meu futuro estivesse enterrado nele.
A decisão do retorno não tinha sido fácil. Foi dolorosa, foi traumática, foi cirúrgica. E enquanto o carro ganhava terreno eu me perdia. O destino seria uma nova vida, uma nova chance. Não, não era nada disso. Era minha expiação, necessitava expiar minha culpa. Expiar meus erros. Arrancar dentro de mim o câncer a me roer e corroer, o câncer da culpa.
As estrelas ao longe piscavam e mostravam-se maiores do que em noites normais. A lua nos seguia, nos observava. Logo chegaríamos ao nosso destino.
Amanhecia.
A cidade que me esperava já era minha velha conhecida e fervilhava. Cidade turística, cidade de tantas etnias. A cidade sorriu-me. Ele continuava a dirigir e dirigir sem se cansar, sem muito falar. O que era raro. Entre nós sempre foi o mais falante. Reclamava do meu jeito calado, sempre em busca do poder sobre mim, se pudesse entraria em minha mente e a vigiaria noite e dia, dia e noite.
A casa. Diferente da que tivemos, diferente da que vivemos por vários e vários anos, testemunha de todos os nossos conflitos, de todas as nossas dores. Essa, era bonita, chique. Melhor e já mostrava os traços da personalidade do seu novo dono. Assim que a vi, percebi que ele não havia mudado, nada havia mudado.
Ao entrarmos sala a dentro, as chaves do carro foram jogadas em cima da mesa. E ao me tocar novamente ao estender sua mão para meu nariz, novamente seus olhos tocaram os meus e vi no fundo deles, que nada mudaria. Eu expiaria minha culpa, meus pecados estavam a mercê de sua esquizofrênia.
domingo, 28 de setembro de 2014
das penas...
o que tramam os pássaros
na revoada que pia e passa?
ignoram as águas
ignoram as horas
ignoram as mágoas
ignoram as lágrimas
piam e piam e passam
dos olhos, são asas...
na revoada que pia e passa?
ignoram as águas
ignoram as horas
ignoram as mágoas
ignoram as lágrimas
piam e piam e passam
dos olhos, são asas...
dos ecos...
e se ouso
e se pouco
de amor, eu falo
de amor, eu ouço
é de um amor louco
é de um amor torto
ainda fogo
ainda poço
e morto
e morro
voo...
e se pouco
de amor, eu falo
de amor, eu ouço
é de um amor louco
é de um amor torto
ainda fogo
ainda poço
e morto
e morro
voo...
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
in sone...
que fúria é essa
sem nome, tão pressa?
do relógio
não quer as horas
dos olhos
não quer os sonhos
e mata
sem ser fome
e cega
sem ser sede
que fúria é essa
sem colo, sem dono?
insônia
insônia...
sem nome, tão pressa?
do relógio
não quer as horas
dos olhos
não quer os sonhos
e mata
sem ser fome
e cega
sem ser sede
que fúria é essa
sem colo, sem dono?
insônia
insônia...
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