segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ponto a ponto...


o que é lusco
o que é fusco
busco

o que é torpe
o que é torto
recolho

passos, laços
nacos, pedaços, ferrugens
ferrolhos

aqui e ali
na ponta da rima
cacos costuro

sábado, 18 de outubro de 2014

das profecias...

"dizei uma palavra
e serei salva"

do sangue
o mistério

das linhas
a palma

da lança
o alvo

da poesia
a pele

 da carne
a alma...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

da quietude...

finge o felino
ser uma esfinge noturna
e o escuro mia

os ratos?
espiam e expiam...

sábado, 4 de outubro de 2014

com tato...

um véu
rente aos céus

de azul lampejo
de vermelho medo

a pedir aos dedos
boca, língua e beijos...

um véu
rente ao mel

de branco segredo
de verdes desejos

a pedir às letras
gosto, toque e cheiro...

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

né?

tudo o que queria
era um pouco de açúcar

um pedaço de pão
e uma pitada de sal

café com leite, arroz, feijão
tomate, couve e almeirão

uma cama, um fogão
livros e mais livros

água doce
e roupa no varal

para companhia
um cão, um gato, uma galinha

um punhado de siêncios
e muita poesia...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Das culpas...

As rodas comiam o asfalto com fome e com pressa. A noite favorecia aos devaneios, o motorista ao meu lado, tão conhecido por mim, fazia a troca de marchas sem piscar, sem pestanejar. Engraçado, em raras situações eu sentia que sua mente esquizofrênica dava-lhe paz, dirigindo era uma delas.
Talvez pela configuração dos signos, a minha trouxe-me essa empatia, essa intuição que me assola, que me castiga, que me tortura. Poucas são as pessoas que fito, que observo e não consigo vislumbrar suas essências, diria que são quase exceções.

Existem homens com desejos tantos, com fetiches tantos, com gestos tantos e inimagináveis, a literatura, a internete estão recheadas deles. Mas ainda não li, não vi, alguém que fosse fissurado no toque puro e simples de um nariz. Sim, era esse o maior gesto e a maior prova de amor do homem ao meu lado. Entre um quilômetro e outro estendia sua mão ao meu rosto e seus olhos tocavam os meus. E me diziam do prazer de me sentir de me perceber ao seu lado através de um toque em meu nariz. Havia dias que me ressentia, doia-me o bendito nariz. Por quantos anos isso? Muito e muitos, brincava e sorria me dizendo que só eu lhe proporcionava esse prazer, os outros narizes não eram o meu. Quando o evitava, quando evitava seu toque, era como tirar-lhe o sentido das  mãos, cortava o cordão umbilical que nos unia.

E ali estávamos, os dois embalados por Beatles, sempre Beatles. Ele, conhecia todas as músicas, tocava-as todas. E hoje, qualquer menção de Lennon, Paul, Ringo, George me levam ao passado. Tantas coisas me levam ao passado. Como se meu futuro estivesse enterrado nele.

A decisão do retorno não tinha sido fácil. Foi dolorosa, foi traumática, foi cirúrgica. E enquanto o carro ganhava terreno eu me perdia. O destino seria uma nova vida, uma nova chance. Não, não era nada disso. Era minha expiação, necessitava expiar minha culpa. Expiar meus erros. Arrancar dentro de mim o câncer a me roer e corroer, o câncer da culpa.

As estrelas ao longe piscavam e mostravam-se maiores do que em noites normais. A lua nos seguia, nos observava. Logo chegaríamos ao nosso destino.

Amanhecia. 

A cidade que me esperava já era minha velha conhecida e fervilhava. Cidade turística, cidade de tantas etnias. A cidade sorriu-me. Ele continuava a dirigir e dirigir sem se cansar, sem muito falar. O que era raro. Entre nós sempre foi o mais falante. Reclamava do meu jeito calado, sempre em busca do poder sobre mim, se pudesse entraria em minha mente e a vigiaria noite e dia, dia e noite.

A  casa. Diferente da que tivemos, diferente da que vivemos por vários e vários anos, testemunha de todos os nossos conflitos, de todas as nossas dores. Essa, era bonita, chique. Melhor e já mostrava os traços da personalidade do seu novo dono. Assim que a vi, percebi que ele não havia mudado, nada havia mudado.

Ao entrarmos sala a dentro, as chaves do carro foram jogadas em cima da mesa. E ao me tocar novamente ao estender sua mão para meu nariz, novamente seus olhos tocaram os meus e vi no fundo deles, que nada mudaria. Eu expiaria minha culpa, meus pecados estavam a mercê de sua esquizofrênia.

domingo, 28 de setembro de 2014

das penas...

o que tramam os pássaros
na revoada que pia e passa?

ignoram as águas
ignoram as horas

ignoram as mágoas
ignoram as lágrimas

piam e piam e passam
dos olhos, são asas...

dos ecos...

e se ouso
e se pouco

de amor, eu falo
de amor, eu ouço

é de um amor louco
é de um amor torto

ainda fogo
ainda poço

e morto
e morro

voo...

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

in sone...

que fúria é essa
sem nome, tão pressa?

do relógio
não quer as  horas

dos olhos
não quer os sonhos

e mata
sem ser fome

e cega
sem ser sede

que fúria é essa
sem colo, sem dono?

insônia
insônia...

sábado, 20 de setembro de 2014

das lágrimas...


de anseio em anseio
gasto dos olhos, os joelhos

de tão gastos,  tão cansados
não dobram-se, espasmam-se

e choram...