quinta-feira, 11 de setembro de 2014

38


de ave em ave
silenciam -se as cores do dia
e o crepúsculo pia...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

desejos...

eram turvas
as curvas

eram lascivas
as fugas

eram tenras
as uvas

e um medo
do passo a frente

e um medo
da boca pendente

e o medo
das mãos ardentes

um não
querendo sim

sem armas
sem disfarces

prender as uvas
entre a língua e os dentes

no lascivo
diluir-se em fuga

beber das curvas
águas profundas

e afogar o medo
em corpos que procuram-se...


sábado, 6 de setembro de 2014

Adubo


Não espero de você alguma empatia. Preste atenção, por favor. Se não existe para mim, não espero que exista para mais ninguém. Uma palavrinha com ranço de cabresto inventada  para cercear os instintos. Uma baboseira a mais citada por idiotas que pensam entender pessoas iguais a mim.

Sabe, você não me conhecia mas eu te conhecia. Se empatia para mim não existe, existe algo maior e melhor, existe em mim a capacidade pura e virgem de farejar o que você sente e pensa sem que isso me afete e atrapalhe meu objetivo. Pelo contrário, faço uso e abuso dessa capacidade.

Minha espécie, graças a Deus, é desprovida de sentimentos e apegos. Por não tê-los identifico-os e bem. Juro que meu desejo é de comemorar o gozo que o sangue escorrendo de suas veias para sua carne está me proporcionando. Prolongar e comemorar. Comemorar por vários e  vários dias. Se pudesse te exibiria, exibiria o meu êxtase, o meu poder sobre a matéria. Não me olhe assim... Tenho minha vaidade, meu ego. Orgulho de minha obra.

Acha que sou louco?

Não irá me responder. Nem outros corpos me responderam. Gosto disso. Vejo que ainda resta uma centelha de vida em seus olhos. Interessante. Está demorando um pouco mais. Por quê?
Não, não tente responder. Conserve o que te resta de energia para mim.

Quero continuar a te deleitar com minha sabedoria sem ser interrompido. Onde paramos?
Curiosa em saber como te conheci? Não, não pense bobagens. Não foi em redes sociais. Muito manjado. Para quem não consegue falar está indo muito bem. Um pouco mais e terminaremos. Tenha paciência. Bom demais esse seu sangue escorrendo, deixe-me prolongar meu prazer. Você deu trabalho, não esperava por isso. Miúda, magrela. Mas arranha como gato e dá coice como cavalo. Não devia ter me machucado, tive de te prender antes da hora. Gosto mais quando o processo da caça se prolonga.

Mas, sou magnânimo, te perdoo, está indo bem.

Vamos em frente, antes que... Antes que... Se quiser pode  rezar. Dizem que é bom antes da hora derradeira. Se ele lá em cima te ouvir, mande minhas saudações, um belo trabalho o dele. Corpos e mais corpos a serem ceifados para alimentá-lo. Eis o que sou, minha cara, um servo de Deus. Ofereço o sua alma a ele. E eu... Eu fico com sua carne pulsante, com seu medo que lateja, com seu sangue que brota como flores vermelhas de sua pele onde carinhosamente penetrei minha adaga.

Droga. Outra que me deixa falando sozinho. Pobrezinha partiu sem saber onde a conheci. Fácil, observar, marcar a caça. Fazer os planos e executar.

Não foi difícil atraí-la para meu carro. Um dia ou outro elas aceitam a carona. E agora estava ali em minha cama ao meu sagrado dispor. Finalmente calou a boca. Calou a boca de fato e me deixou em paz. Resmungos, vozes, gritos, gêmidos me incomodam. As pessoas fariam bem umas as outras se evitassem o desprazer de serem ouvidas. Mas, eu admito e agradeço do fundo do meu coração, o imenso e inenarrável prazer. Pouco a pouco tirar de dentro da preciosa carne o que a contamina, retirar todo o peso de anos e mais anos desses corpos é maravilhoso. Um corte, dois cortes, lanhando mais um pouco, um pouco mais. Somente eu, sei e conheço suas verdadeiras faces, sem nenhuma linha de expressão, sem nenhuma emoção. Não há nada mais belo do que o rosto de um cadáver. Nada mais puro. Lamento que assim seja por pouco tempo. Logo se deterioram e perdem esse encanto.

O corpo a minha frente, ainda quente, foi meu cúmplice, me  provocou e acenou com gestos em um ritual conhecido por mim. O que dentro dele havia era um estorvo. Como as pessoas são idiotas, pensam ser mais do que carne, ossos e sangue, não são. Tirando o que dentro delas há, o que resta é  o adubo.  Dizem serem complicadas e são simples. Querem um alozinho, um sexozinho, um noitada, a rotina. Infelizes. Eu sou superior. Livro-os da carga emocional, reduzo-os à matéria, santifico-os pós morte. A terra o que é da terra, adubo.



domingo, 31 de agosto de 2014

das faces


desconstruo-me
sem buscas, sem rumos

e escorro feito leite
em xícara sem fundo

sem raízes, faço das letras
minha cama, minha ilha...

pinço aqui e ali palavras
que foram entrelinhas

mato o que foi inteiro
vivo do que morreu

e entre meus dedos
esmago,  espelhos meus...

sábado, 30 de agosto de 2014

então tá...

não diga que não te avisei
não diga que não te evitei...

eu tentei e você sabe
antes e depois da carne

mas, se é pra ser além...
que assim seja, amém

agora é tão meu o tempo
ontem e hoje num sempre

as máscaras uma à uma,  pisoteadas,
e todo fel deliciosamente inalado

tão longo o caminho riscado
tão longo e por nós, desejado

suas mãos, seus olhos distantes
cuidando dos meus fracassos,

não, não diga que não te avisei
não, não diga que não te evitei...

éramos você e eu
eu e você e mais nada...

eu tentei e tentei e você sabe
se nos machucamos foi nos quases

se, nos achamos, foi no pecado
você sente e  você sabe...

sem imagens
só palavras...

terça-feira, 19 de agosto de 2014

ir e vir...


repetem-se os ciclos
noite e dia, verão e inverno
morte e vida

assim
caminha a humanidade
em círculos...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

andanças...

são nessas visitas minhas
tão íntimas aos meu quartos
onde estilhaço-me...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

dos rebentos...

num onde
alastram-se
anseios

brota
o feto
do verso

esse
ainda
ao meio

sem saber-se
meu ou alheio
pele ou beijo...

sem fim
sem começo
de joelhos...

sonha
ser da poesia,
as veias...

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

das datas...


se é de pai
se é de mãe

tanto faz,
se, noite ou  dia...

há mãos
há preces

e essa pressa
do pão, da paz

e pés
que caminham

sozinhos...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

a gosto...

com que rosto
anda o tempo

velho
ou moço?

dizem
dos desgostos

dizem
dos loucos

dizem
dos ventos

dizem
dos lamentos

com tanto gosto
dizem e dizem: é agosto...