quinta-feira, 5 de junho de 2014

e nem é inverno...


tão lascivo
veio o frio

sobe árvores
desce a pele

velho conhecido
dos gatos, dos telhados

a carne espia
quer poesia

em tons cinzas
caminha

faz trapaça
corpos enlaça

de branco
forra a grama

arrepia, lateja
faz-se amante

desejos
e cama...

terça-feira, 3 de junho de 2014

simples assim...

amanhã
visitarei tuas
lembranças

será um hoje
com cara
de ontens

numa brincadeira
de esconde
esconde

esconderei eu,
os olhos  meus
dos teus

mas, se em ti
pousar uma poesia
minha...

nego
e negarei
a autoria

domingo, 1 de junho de 2014

descarne...


não sei onde foi
não sei como foi

sei da trave retirada
sei do vidro quebrado

sei desses meus olhos
que tudo desnudam

e do sarcasmo
da ironia, abusam,

sei dos meus passos
em caminhos contrários

desse cansaço
da mesmice e dos achos

sei

do meu desprezo
seco, ao cubo, com gelo

que laços
e pessoas

navalha

sábado, 31 de maio de 2014

do que sou...


e essa ponte

entre meus olhos
e minha boca

entre minhas letras
e meus pensamentos

entre meu rosto
e o espelho

entre meu corpo
e o tempo

essa ponte

faz-me tropeço

faz-me segredo

faz-me latente

faz-me hoje

faz-me dos defeitos

ciente...

sexta-feira, 30 de maio de 2014

33

há tantas penas
entre o verde e o cinza do dia-
nem só os pássaros piam

quinta-feira, 29 de maio de 2014

à margem...


Letárgicas minhas letras, negam-se aos meus dedos. Fossem cadáveres, mereceriam lápides, mereceriam secas e esturricadas lágrimas. Um retorno ao que me dedicam há dias, ontens e hoje. Ingratas, fazem-se mulheres frias, reviram-se, escondem de mim sua poesia. Poesia? Como  se fosse minha cria, a poesia. Que ignomínia... Não há a posse da poesia. Não há no rosto que se esconde por trás dos nomes a magia de despertar fosse onde fosse, fosse poço, fosse fossa a queima da carne, a ardência da alma onde mora a desonra do que é ser direito, o certo sem avesso. Tudo é gelo, tudo é degredo aos olhos que batem e voltam na lâmina rasa e sem espelho nesse rosto que tenta não ser de si as próprias letras em veios.

E elas, as letras, sabem e encaram-me de cara feia, com maus modos, crianças que tudo veem, que tudo pressentem entre a página branca e longa que estende-se entre meu leito e o concreto do martelo que nega-se a executar ordens sem nenhum deleite, sem nenhum defeito. Posto que perfeita não sou, posto que torta são e sabem as palavras que de mim escorrem quando sem eixo, deixo-as livres e soltas.

Nessa guerra entre o ser e o não ser, perco. Perco o tino, o rumo, o prumo, a rima. Restam-me os passos mancos, as palavras surdas. Não querem a exatidão, não querem os céus, buscam o porão. Buscam entre meus dedos o refugo, o esgoto, o meio vivo, meio morto. O torto.

É nas arestas, é na assimetria, é nos olhos que cavam e escavam imagens em busca do miolo onde a arte encostou suas palavras como se um descarte fosse que mergulho e volto, zonza, tonta. E ali ou aqui, à margem, sempre à margem do que para uma maioria hipócrita e mediocre vive seus dias, enfim enroscada ao doce sorriso das letras que antegozam em meus dedos minha rendição, minha submissão, de cabeça baixa, em transe e palavras em riste, corro riscos, teço rabiscos, arranho e ouço gritos de uma alma torta,  a minha e suas  poesias.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

dos ciclos...


debruça-se um maio
sob uma chuva pálida

obediente
paciente

gota à gota
lava e tinge folhas

o que foi verde
o amarelo tece

o que foi vida
esfarela-se

recolhem-se
mais cedo os pássaros

fecham-se
mais cedo os olhos

é o outono
bolinando maio

é o tempo
que o inverno, espera...

terça-feira, 20 de maio de 2014

insípida


desembaraço meus nós
estico, puxo, vomito erros

estendo o que deles sobra
em varais de arrependimentos

um nada sem gosto, sem graça
recolho, reduzo,  amasso, engulo

eram dos erros
as flores, as cores, o tempero

sem nós
sem caos

sem rumo, sem sal
sigo, a esmo..

segunda-feira, 19 de maio de 2014

poesia...


eu tento ser prosa
degustar das letras
com garfo e faca

da faca, erro o lado
e minhas veias abro
sobre as palavras

nem com o garfo
tenho jeito, escapa-me
e do chão faz leito

 restam-me as mãos,
não, não diria vazias
nelas, sangra, a poesia..

sexta-feira, 16 de maio de 2014

que vergonha...

entre
versos
frios

um fio
de palavras
sem química

costurava
a última
rima

constrangida
fugiu
a poesia