domingo, 1 de junho de 2014

descarne...


não sei onde foi
não sei como foi

sei da trave retirada
sei do vidro quebrado

sei desses meus olhos
que tudo desnudam

e do sarcasmo
da ironia, abusam,

sei dos meus passos
em caminhos contrários

desse cansaço
da mesmice e dos achos

sei

do meu desprezo
seco, ao cubo, com gelo

que laços
e pessoas

navalha

sábado, 31 de maio de 2014

do que sou...


e essa ponte

entre meus olhos
e minha boca

entre minhas letras
e meus pensamentos

entre meu rosto
e o espelho

entre meu corpo
e o tempo

essa ponte

faz-me tropeço

faz-me segredo

faz-me latente

faz-me hoje

faz-me dos defeitos

ciente...

sexta-feira, 30 de maio de 2014

33

há tantas penas
entre o verde e o cinza do dia-
nem só os pássaros piam

quinta-feira, 29 de maio de 2014

à margem...


Letárgicas minhas letras, negam-se aos meus dedos. Fossem cadáveres, mereceriam lápides, mereceriam secas e esturricadas lágrimas. Um retorno ao que me dedicam há dias, ontens e hoje. Ingratas, fazem-se mulheres frias, reviram-se, escondem de mim sua poesia. Poesia? Como  se fosse minha cria, a poesia. Que ignomínia... Não há a posse da poesia. Não há no rosto que se esconde por trás dos nomes a magia de despertar fosse onde fosse, fosse poço, fosse fossa a queima da carne, a ardência da alma onde mora a desonra do que é ser direito, o certo sem avesso. Tudo é gelo, tudo é degredo aos olhos que batem e voltam na lâmina rasa e sem espelho nesse rosto que tenta não ser de si as próprias letras em veios.

E elas, as letras, sabem e encaram-me de cara feia, com maus modos, crianças que tudo veem, que tudo pressentem entre a página branca e longa que estende-se entre meu leito e o concreto do martelo que nega-se a executar ordens sem nenhum deleite, sem nenhum defeito. Posto que perfeita não sou, posto que torta são e sabem as palavras que de mim escorrem quando sem eixo, deixo-as livres e soltas.

Nessa guerra entre o ser e o não ser, perco. Perco o tino, o rumo, o prumo, a rima. Restam-me os passos mancos, as palavras surdas. Não querem a exatidão, não querem os céus, buscam o porão. Buscam entre meus dedos o refugo, o esgoto, o meio vivo, meio morto. O torto.

É nas arestas, é na assimetria, é nos olhos que cavam e escavam imagens em busca do miolo onde a arte encostou suas palavras como se um descarte fosse que mergulho e volto, zonza, tonta. E ali ou aqui, à margem, sempre à margem do que para uma maioria hipócrita e mediocre vive seus dias, enfim enroscada ao doce sorriso das letras que antegozam em meus dedos minha rendição, minha submissão, de cabeça baixa, em transe e palavras em riste, corro riscos, teço rabiscos, arranho e ouço gritos de uma alma torta,  a minha e suas  poesias.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

dos ciclos...


debruça-se um maio
sob uma chuva pálida

obediente
paciente

gota à gota
lava e tinge folhas

o que foi verde
o amarelo tece

o que foi vida
esfarela-se

recolhem-se
mais cedo os pássaros

fecham-se
mais cedo os olhos

é o outono
bolinando maio

é o tempo
que o inverno, espera...

terça-feira, 20 de maio de 2014

insípida


desembaraço meus nós
estico, puxo, vomito erros

estendo o que deles sobra
em varais de arrependimentos

um nada sem gosto, sem graça
recolho, reduzo,  amasso, engulo

eram dos erros
as flores, as cores, o tempero

sem nós
sem caos

sem rumo, sem sal
sigo, a esmo..

segunda-feira, 19 de maio de 2014

poesia...


eu tento ser prosa
degustar das letras
com garfo e faca

da faca, erro o lado
e minhas veias abro
sobre as palavras

nem com o garfo
tenho jeito, escapa-me
e do chão faz leito

 restam-me as mãos,
não, não diria vazias
nelas, sangra, a poesia..

sexta-feira, 16 de maio de 2014

que vergonha...

entre
versos
frios

um fio
de palavras
sem química

costurava
a última
rima

constrangida
fugiu
a poesia


quinta-feira, 15 de maio de 2014

impaciente


há um cio lá fora
não sei se é da gata, ou...
da lua que mia

mas "só", chora...

por que?

e quando vem a tosse
parece querer de mim
arrancar os pulmões

pergunto-me
por que não?

por que
não arrebentar
meus porões?

deixar sangrar
garganta e boca à fora
a carne que me devora

essa a asfixiar a alma
essa a castigar o relógio

por que
não vomitar a vida
que me apavora?

deixá-la escorrer
a mercê de veios famintos
nesse chão que me convida

tão fácil seria
trilhar esse caminho

por que não?
por que não?