quinta-feira, 29 de maio de 2014

à margem...


Letárgicas minhas letras, negam-se aos meus dedos. Fossem cadáveres, mereceriam lápides, mereceriam secas e esturricadas lágrimas. Um retorno ao que me dedicam há dias, ontens e hoje. Ingratas, fazem-se mulheres frias, reviram-se, escondem de mim sua poesia. Poesia? Como  se fosse minha cria, a poesia. Que ignomínia... Não há a posse da poesia. Não há no rosto que se esconde por trás dos nomes a magia de despertar fosse onde fosse, fosse poço, fosse fossa a queima da carne, a ardência da alma onde mora a desonra do que é ser direito, o certo sem avesso. Tudo é gelo, tudo é degredo aos olhos que batem e voltam na lâmina rasa e sem espelho nesse rosto que tenta não ser de si as próprias letras em veios.

E elas, as letras, sabem e encaram-me de cara feia, com maus modos, crianças que tudo veem, que tudo pressentem entre a página branca e longa que estende-se entre meu leito e o concreto do martelo que nega-se a executar ordens sem nenhum deleite, sem nenhum defeito. Posto que perfeita não sou, posto que torta são e sabem as palavras que de mim escorrem quando sem eixo, deixo-as livres e soltas.

Nessa guerra entre o ser e o não ser, perco. Perco o tino, o rumo, o prumo, a rima. Restam-me os passos mancos, as palavras surdas. Não querem a exatidão, não querem os céus, buscam o porão. Buscam entre meus dedos o refugo, o esgoto, o meio vivo, meio morto. O torto.

É nas arestas, é na assimetria, é nos olhos que cavam e escavam imagens em busca do miolo onde a arte encostou suas palavras como se um descarte fosse que mergulho e volto, zonza, tonta. E ali ou aqui, à margem, sempre à margem do que para uma maioria hipócrita e mediocre vive seus dias, enfim enroscada ao doce sorriso das letras que antegozam em meus dedos minha rendição, minha submissão, de cabeça baixa, em transe e palavras em riste, corro riscos, teço rabiscos, arranho e ouço gritos de uma alma torta,  a minha e suas  poesias.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

dos ciclos...


debruça-se um maio
sob uma chuva pálida

obediente
paciente

gota à gota
lava e tinge folhas

o que foi verde
o amarelo tece

o que foi vida
esfarela-se

recolhem-se
mais cedo os pássaros

fecham-se
mais cedo os olhos

é o outono
bolinando maio

é o tempo
que o inverno, espera...

terça-feira, 20 de maio de 2014

insípida


desembaraço meus nós
estico, puxo, vomito erros

estendo o que deles sobra
em varais de arrependimentos

um nada sem gosto, sem graça
recolho, reduzo,  amasso, engulo

eram dos erros
as flores, as cores, o tempero

sem nós
sem caos

sem rumo, sem sal
sigo, a esmo..

segunda-feira, 19 de maio de 2014

poesia...


eu tento ser prosa
degustar das letras
com garfo e faca

da faca, erro o lado
e minhas veias abro
sobre as palavras

nem com o garfo
tenho jeito, escapa-me
e do chão faz leito

 restam-me as mãos,
não, não diria vazias
nelas, sangra, a poesia..

sexta-feira, 16 de maio de 2014

que vergonha...

entre
versos
frios

um fio
de palavras
sem química

costurava
a última
rima

constrangida
fugiu
a poesia


quinta-feira, 15 de maio de 2014

impaciente


há um cio lá fora
não sei se é da gata, ou...
da lua que mia

mas "só", chora...

por que?

e quando vem a tosse
parece querer de mim
arrancar os pulmões

pergunto-me
por que não?

por que
não arrebentar
meus porões?

deixar sangrar
garganta e boca à fora
a carne que me devora

essa a asfixiar a alma
essa a castigar o relógio

por que
não vomitar a vida
que me apavora?

deixá-la escorrer
a mercê de veios famintos
nesse chão que me convida

tão fácil seria
trilhar esse caminho

por que não?
por que não?


quarta-feira, 14 de maio de 2014

dos fiapos


refazer os nós
colar os cacos

quem sabe
juntar os ossos

de um  jeito manco
escalar barrancos

encilhar um corpo
meio vivo, meio morto

feito boneca de trapos
talhada na arte em cortes,

e torta

tropegamente
ir em frente

sexta-feira, 9 de maio de 2014

da paz

queria
das histórias
ou dos contos
o ponto final

fosse de amor
ou de guerra
encontro ou
de espera

fosse de açúcar
ou de sal
de água ou
de terra

tanto faz
só no ponto final
há paz
a paz

quinta-feira, 8 de maio de 2014

das almas


se pergunto aos deuses
de que barro, você e eu
fomos feitos

se  pergunto aos deuses
em que gatos e letras tantas
moram nosso encanto

como de praxe
a resposta é o deboche

são apenas, "achos"

e não acho-me

é no limbo
onde vivo, onde piso
nosso encontro

o resto é febre
o resto é carne
o resto é tato

e ao alcance das mãos
não te acho

não importa
não há janelas
não há portas

acostumada a viver
nesse limbo que me consome
não tenho mais nome

"só" sou almma