quarta-feira, 7 de maio de 2014
fuga
fez-se um rombo
do telhado, os olhos,
e de dentro para fora
réstias em fúria
cacos a morderem dos céus
nuvens e rua...
restou uma casa vazia,
copos e sonhos na pia
obscuras e insones
poesias
do telhado, os olhos,
e de dentro para fora
réstias em fúria
cacos a morderem dos céus
nuvens e rua...
restou uma casa vazia,
copos e sonhos na pia
obscuras e insones
poesias
domingo, 4 de maio de 2014
mordaças
mordazes cadarços amarram
com destreza as palavras,
na boca escondem as farsas
as frases que proferem
ladainhas, terços, fedem,
travam com fé, a verdade,
tristeza aos deuses... pedem,
em um ato de culpa e contrição
oferecem um indulto, ao pecado
um pedaço do dia, do lucro
mordaças que cheiram a traças
vingam no fundo das frestas da alma
penetram a carne adoçando a saliva
correm no leito das veias
esfaqueando cruzes ocultas
mordazes, mordaças
traças, farsas, escarros
cadarços presos à navalhas
golpeiam o espírito
em atrito
o verbo se faz escravo
pulsa, vísceras implode
joelhos lambendo o chão
tripas, carniça, delicias
escorrendo in vão...
prece, cárcere, pressa
travas, céus, mãos
reza, palavra, prêsa,
talvez, sim... não
sábado, 3 de maio de 2014
noites brancas...
leite fresco nas pestanas da noite
paredes esbranquiçadas em afrescos
a majestade sonâmbula não adormece
arfa e arde no colo das estrelas
fantasmas cuspidos no talhe da pedra
flutuam em potes habitados pela névoa
o rio turvo na órbita das trevas
borda com o poeta o bocejo da atmosfera
noites brancas infestam os rugidos dos anjos
arranham a abóbada, esporam seus flancos,
pálida... arabesco na tela da pele
nasce Vênus... sopro em madrepérola
fisgado o poeta na lactose da espera
alfineta um sol maior nas asas da musa
júbilo de brilho, escorre alma adentro
ópera em janelas abertas
no parapeito em um quarto da lua
perplexos arroubos cortejam adagas
embriaguez de mãos em gelo quente
despertam a luminosidade dos pântanos
relâmpagos afugentam a via-láctea...
vidraças limpas nascem com a alvorada,
as noites brancas sem o reboco das sombras
envelhecem com a ponte nos olhos do poeta
inóspitas rugas apavoram os templos,
no sorriso em um gancho no palácio do tempo
o espectro da poesia sorve o leite derramado
dos seios nebulosos de Vênus...
sexta-feira, 2 de maio de 2014
das maçãs...
hoje jejuo
abstenho-me
ao redor da fome
costuro silêncios
e se me faço muda
nada quero, nada engulo
amanhã quiçá
tenha fome de maçãs
arrebente gavetas
vasculhe pecados
e
imune ao perdão
faça um minha culpa
vomite sobre os silêncios
minha abstinência
sem fazer-me muda
tudo queira, tudo engula
mas amanhã,
hoje jejuo...
sou de mim, ermitã
não quero maçãs
quinta-feira, 1 de maio de 2014
passamento
se é para ser dor
que seja para extirpar
o que passou
sem coágulos
presos às costas
do tempo
sem nome
sem rosto
sem portas
pó e só...
quarta-feira, 30 de abril de 2014
efemeridade
já não me servem
as palavras de sempre,
visto-me de instantes
e
na inconstância
rasgo o que foi ontem...
as palavras de sempre,
visto-me de instantes
e
na inconstância
rasgo o que foi ontem...
terça-feira, 29 de abril de 2014
segunda-feira, 28 de abril de 2014
sangra...
sangra minha alma
sob as patas do tempo, sangra
cavalga contra o vento
distorce meu pensamento,
fina esgrima
perfura minhas entranhas
liberta minha carne
drena meus sentimentos
sagrados tormentos
em um só espaço...
eu e meus eus,
eu e meus ais
ai de mim
de mim drenam ais
assim com rimas
com imãs
sangro a toda hora...
derramo sonhos errantes
sem nexo complexos,
eu e meus eus
ai de meus eus
eus de meus ais!
busca constante
contradições
eu, miseravelmente eu,
sangro e nada mais...
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