O dia seco agradecia o vento frio
que começava a soprar. Era prenúncio de chuva, seu corpo pressentiu as
correntes elétricas que se propagavam antes que o céu se fechasse em
nuvens escuras.
Seus cotos sempre sabiam, agitavam-se pedindo
proteção. Enrolou-os no que sobrara das suas vestes, tentando em vão
proteger-lhes como se protege uma criança indefesa.
A
cidade estava em movimento. Ali na calçada, triste e insultada pela
vida, Lola tentava manter o pouco de dignidade que ainda lhe restava Não
se lembrava de como fora parar ali, não se lembrava como se perdera na
vida.
As pessoas que passavam por ela, lhe dedicavam um olhar
penalizado, às vezes nem isso... Às vezes desviavam o olhar, como ela
fosse o mal sendo castigado por seus pecados. Afinal algo deveria ter
feito de errado para ter perdido as pernas precisando se arrastar pelo
chão, ela se encolhia diante desses olhares que a julgavam e condenavam,
tentava esconder cada vez mais seus cotos daqueles que zombavam da sua
fragilidade.
Era evidente
que estava a esmolar. O céu se fechava cada vez mais e Lola começava a
se desesperar, crianças saíndo da escola passavam por ela fixando os
olhares curiosos, algumas a apontavam rindo como se fosse um ser
bizarro. Achavam graça nela. Perguntou-se onde estariam suas próteses.
Não havia nem sinal delas, se é que um dia as tivera.
Uma dor
atingiu Lola ao se sentir tão desnudada diante da vida, a dor de estar
impotente diante daquele momento. As mãos estavam sujas, os cabelos
amarrados teimavam em sair do lugar, queria ir ao banheiro, ansiava por
um banho quente, não sabia mais o que fazer. O vento se tornava cada vez
mais forte, trazendo-lhe a poeira das ruas invadindo suas roupas já
sujas e queimando seus olhos. Uma lágrima caiu em sua boca, sentiu o
gosto salgado na água que marcava sua face... seu único alimento, seu
único alento.
O tumulto
nas ruas aumentava por causa da tempestade prenunciada, Lola tentava se
esconder da melhor maneira possível, como lhe faziam falta as pernas
nesse momento...Como queria poder estar de pé e correr, precisava se
proteger da chuva que logo caíria . Mas não era possível, só restava
aquietar seus cotos, que cada vez mais se agitavam. E quando as
primeiras gotas de chuva começaram a molhar seu corpo, surge uma pessoa,
viera buscar os poucos centavos que Lola segurava nas mãos sujas, teve
medo dele, mas não disse nada, pensou que de alguma forma a levaria
dali. Porém ele foi embora e a deixou sozinha no meio da calçada, agora
quase deserta.
Ergueu seu
rosto para o céu e teve uma vaga lembrança de um passado entre as nuvens
carregadas... A lembrança de haver em algum lugar uma outra pessoa
zombando dela dizendo-lhe que nem sempre o bem vence o mal, mas quase
sempre os fortes vencem os fracos...Não havia naquele momento nenhuma
esperança que pudesse amenizar seu sofrimento. A chuva finalmente caiu
com toda sua força, lavando seu corpo mutilado causando arrepios na
carne e na alma, sentiu-se por alguns momentos agradecida por ver-se
livre da sujeira que o arrastar no chão lhe impusera.
O frio que
lhe causavam o vento e a chuva, era pequeno diante do frio que sua alma
sentia. Precisava de calor humano. Chorou na tentativa de aquietar seu
coração.
As lágrimas que
molhavam seu rosto, os seus soluços a fizeram acordar...Tinha sido mais
um dos seus pesadelos, se encolheu na cama sentindo em seu corpo o ecoar
da tempestade que caía, fechou os olhos e pensou se haveria lá fora uma
outra Lola com medo da chuva....