sexta-feira, 18 de abril de 2014

são gritos


entre as letras
e o pão que fermenta
minha mente fervilha
cá estou eu, louca
farejando meus pares
caçando minha matilha

o pão deitado na mesa
jaz como o corpo de Cristo
à espera de ser ao forno levado
depois do seu longo martírio,
ele, nos homens,
não acredita

as letras, já eu, disse,
são como mulheres vadias
oferencem-se por um rabisco,
quem dá mais? por um sorriso?
entregam-se com volúpia aos dedos
abençoados ou proscritos...

santa escrita,
santo pão
santos, são...
mal ditos, malditos
sanscritos em mãos
ambos em coitos
saciam homens
nem sempre com fome...

o vômito inevitável
vem rasgando a garganta
a massa do pão disforme
os versos de letras tortas
estrebucham-se no chão
aflitos, em um aborto
aos gritos, em vida
celebram, a morte...

quinta-feira, 17 de abril de 2014

cinzas

semi-adormecidas
envelhecem entre as cores
horas e horas cinzas

e enquanto um sonho grita
rasgando o vermelho dos tímpanos
elas, as horas, uma dor, fingem...

fingem e nada dizem
fingem e tudo pintam
mais e mais de cinza

cinzas...

quarta-feira, 16 de abril de 2014

medo da chuva...



O dia seco agradecia o vento frio que começava a soprar. Era prenúncio de chuva, seu corpo pressentiu as correntes elétricas que se propagavam antes que o céu se fechasse em nuvens escuras.
Seus cotos sempre sabiam, agitavam-se pedindo proteção. Enrolou-os no que sobrara das suas vestes, tentando em vão proteger-lhes como se protege uma criança indefesa. 

A cidade estava em movimento. Ali na calçada, triste e insultada pela vida, Lola tentava manter o pouco de dignidade que ainda lhe restava Não se lembrava de como fora parar ali, não se lembrava como se perdera na vida.
As pessoas que passavam por ela, lhe dedicavam um olhar penalizado, às vezes nem isso... Às vezes desviavam o olhar, como ela fosse o mal sendo castigado por seus pecados. Afinal algo deveria ter feito de errado para ter perdido as pernas precisando se arrastar pelo chão, ela se encolhia diante desses olhares que a julgavam e condenavam, tentava esconder cada vez mais seus cotos daqueles que zombavam da sua fragilidade.
Era evidente que estava a esmolar. O céu se fechava cada vez mais e Lola começava a se desesperar, crianças saíndo da escola passavam por ela fixando os olhares curiosos, algumas a apontavam rindo como se fosse um ser bizarro. Achavam graça nela. Perguntou-se onde estariam suas próteses. Não havia nem sinal delas, se é que um dia as tivera.

Uma dor atingiu Lola ao se sentir tão desnudada diante da vida, a dor de estar impotente diante daquele momento. As mãos estavam sujas, os cabelos amarrados teimavam em sair do lugar, queria ir ao banheiro, ansiava por um banho quente, não sabia mais o que fazer. O vento se tornava cada vez mais forte, trazendo-lhe a poeira das ruas invadindo suas roupas já sujas e queimando seus olhos. Uma lágrima caiu em sua boca, sentiu o gosto salgado na água que marcava sua face... seu único alimento, seu único alento.

O tumulto nas ruas aumentava por causa da tempestade prenunciada, Lola tentava se esconder da melhor maneira possível, como lhe faziam falta as pernas nesse momento...Como queria poder estar de pé e correr, precisava se proteger da chuva que logo caíria . Mas não era possível, só restava aquietar seus cotos, que cada vez mais se agitavam. E quando as primeiras gotas de chuva começaram a molhar seu corpo, surge uma pessoa, viera buscar os poucos centavos que Lola segurava nas mãos sujas, teve medo dele, mas não disse nada, pensou que de alguma forma a levaria dali. Porém ele foi embora e a deixou sozinha no meio da calçada, agora quase deserta.

Ergueu seu rosto para o céu e teve uma vaga lembrança de um passado entre as nuvens carregadas... A lembrança de haver em algum lugar uma outra pessoa zombando dela dizendo-lhe que nem sempre o bem vence o mal, mas quase sempre os fortes vencem os fracos...Não havia naquele momento nenhuma esperança que pudesse amenizar seu sofrimento. A chuva finalmente caiu com toda sua força, lavando seu corpo mutilado causando arrepios na carne e na alma, sentiu-se por alguns momentos agradecida por ver-se livre da sujeira que o arrastar no chão lhe impusera.

O frio que lhe causavam o vento e a chuva, era pequeno diante do frio que sua alma sentia. Precisava de calor humano. Chorou na tentativa de aquietar seu coração.
As lágrimas que molhavam seu rosto, os seus soluços a fizeram acordar...Tinha sido mais um dos seus pesadelos, se encolheu na cama sentindo em seu corpo o ecoar da tempestade que caía, fechou os olhos e pensou se haveria lá fora uma outra Lola com medo da chuva....

é noite ainda...


Há um rasgo em meu ventre amputando o umbigo que me liga ao mundo. Um corte a cavar o fim de um verso no meio das nuvens. Da saliva dos céus, alimenta-se, minha oca poesia.
Foi-se o fio enroscado entre os dedos. Desprendeu-se da alma, perdeu-se no espelho.
Finda o dia, finda o crepúsculo. Nasce a noite, grita, esperneia, abre sua boca. Faminta do outro lado da cerca, me espreita. Sabe a noite, do meu cansaço, das minhas dores,  do cordão atorado ao meio.
No arrastar sobre o mármore das letras recolho minhas vestes, minhas folhas, minhas telhas. Fecho janelas, fecho portas, fecho peles, fecho flores. É noite, ainda que o sol a pino paire nos ponteiros do tempo.
É noite, sempre noite. Sem estrelas ou lua, geme minha essência, geme à beira do abismo, geme... Só mais um deslize entre as linhas férreas, é noite. Minha carne às facas se prende. Só mais um ato cirúrgico, o sangue urge, a taça uiva...
Contorce-se meu ventre em visceras. Ao avesso, aberto, descoberto, desprovido, pelas frestas recebe o breu. Descortina da noite, seu véu.  Sem versos, sem verbos, sem sentenças, sem orações, sem palavras, às favas... Segue a vida, e eu, enfim, no limbo da noite, fico.

terça-feira, 15 de abril de 2014

alquimia

há um medo
despertando em minhas mãos
a dor de não mais ter letras

medo da palavra foice
vinda de um espelho alheio
distante e certeiro


há essas entrelinhas
abertas e em vísceras vivas
burlando o silêncio

entrelinhas minhas
passeando em outra vida
tal tatuagem na carne nua

há uma alma, a minha
há outra alma, a sua
reféns da poesia


numa estranha alquimia...

28


um terço de chuvas
uma terça que  se apaga
em meio às águas

correntes


há névoas
nesse peso
das asas

onde o sol
se põe e meus pés
com ele, arrasta

há fissuras, minhas,
nos dedos do vento
a sangrar o tempo

onde, queimo
e gemo, um nunca
que é sempre

há o círculo
seviciado, a gozar
de minhas, pústulas

onde a carne
da palavra, é caça,
e da dor, sou escrava....

vazio

in vitro
vitrais
invento

do tempo
mordo
o cimento

daquelas
paredes
a dentro...

tijolos
meus
arrebento,

construo
castelos
sem elos

inacabados
desolados
ao chão...

remexo
refaço
e nada

vazio
não cio
desinspiração.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

não sei

não sei mais ser suave
indelicadeza, reverso em ferro
bisturis nas entranhas, peço...
sofismas que minha carne, tece,
punhal de incerteza é quase

não sei mais sorrir
brotam rasteiras ervas daninhas
sufocando os poros de onde
em outra seita, cultuavam luxúria
louvor a uma alma crua...

não sei mais ser essência
escorre pelos vidros
da vida, meus cacos,
minha água, partos
cristais aos pedaços

não sei mais ser pura
contamino minhas veias
vícios, riscos...
vínculos arranhados na areia
tempo diluído em sangue

não sei mais ser eu
dor que minha língua, lambe,
letras esculpidas em vitrines
sinais vermelhos sem maestria
em negros glóbulos de rimas...

não sei mais ser flor
sem miolo, oca
rasgo minhas pétalas
fungos em caule seco
restos, incinero...

do casulo

de que foram feitas
essas sinuosas ruas minhas

onde nem meus eus
acham-me de face de fora

de que foram feitas
essas minhas entrelinhas

onde nem minha poesia
encontra o fel que me devora

de que foram feitas
todas as minhas manias

onde nem minhas facas
arranham as pedras que abrigo

de que foram feitas
todas as minhas buscas

onde nem minhas máscaras
alcançam os pés de outrora

de que, onde, quando
perco-me sem mais e tanto

de que, onde, quando
naufrago em meu sumo

fujo

e não volto
e não volto...