sábado, 12 de abril de 2014

sangro

a dor lá fora
late, bate à porta
reclama

declama
inflama-se
entra

e aqui dentro
rasga-me a verve
fere tanto...

um tanto escuro
um tanto quanto
um tanto surdo

e nada muda

sangro

quinta-feira, 10 de abril de 2014

do outono

adentra o outono
pelos galhos, pelas folhas

no vento que sopra
caminham seus olhos

fosse mais quente
fosse mais frio

um pouco mais moço
um pouco mais velho

não seria dos dias
o senhor da nostalgia

não teria nas costas
os passos de ontem

não teria nas mãos
o hoje a  ir embora

sorri o outono
abre sua casa, seus quartos

pinta esperas
enfeita-se de amarelo...

e ao sono, uma prece
acolher o inverno

quarta-feira, 9 de abril de 2014

tão pouco...

um pouco de tudo
nesse fim de mundo
confins de confissões
caricatas  e absurdas

na ponta da agulha
nem fio, nem olhos
só um pedaço do nó
esquecido pelo pó

lanhada, temperada
ao sugo, verte a flor
tolices, achando ser cor
a névoa de sua dor

tolices... confissões
querendo ser semente,
um solo sem  estrelas
estéreis dedos riscam...

megalomaníaca, a letra
pensando ser do sol, a lua
derrama seu resto de vida
sobre o véu da poesia...

um pouco de tudo
nesse fim de mundo,
confissões, tolices
bobagens, catarses

terça-feira, 8 de abril de 2014

27


de barriga de fora
grávida de mil e um olhos-
a lua de seus homens

segunda-feira, 7 de abril de 2014

silêncio


de distantes letras
fiz leito, fiz teto,
fiz sóis
fiz-me nó

um nó aperto
sem carne, abstrato
num gesto em vigilia
e tão só

fiz-me olhos...

sem ir além
sem améns
sem aquéns
sem refém

fiz-me espera
( sem reflexo )

um fio de entrelinhas
em meios aos versos
a soprar num dialeto
poesias ainda feto

e veio o tempo
e veio o vento
e veio o outono
e veio o sono

fez-se  o esquecimento
( mais e mais distantes )
adormeceram as letras,
em silêncio...

domingo, 6 de abril de 2014

do tempo

sei e sinto o desprezo
dos olhos meus aos teus
e te sopro e emudeço

numa síncope no peito
faço morada, faço gelo
e sobre ela, deito-me

não há, não houve
no silêncio que me protege
nenhum outro veio

só esses versos
que ainda teço, ao meio
e me descobrem inteira

ah, essa minha indiferença
que me faz em pé e sem correntes
mãos soltas em reticências

e se me assusta ser livre...
encanta-me a ti, meu desapego
ontem era tudo, hoje és areia

areia ao vento
areia entre os dedos
areia ao tempo

sexta-feira, 4 de abril de 2014

26


escondeu-se o dia-
entre árvores quase cinzas
o crepúsculo pia

Gestando...



E então fez-se dia. Os pássaros cantavam, as comadres gritavam com seus filhos nos quintais vizinhos, o café na cafeteira esfriava.
Da janela da cozinha pude ver os galhos da mangueira acariciando a casa ao lado de costas para mim.
E aquela maldita TPM, a dor nos seios, o sol embaçado, o piso limpo que me parecia sujo, muito sujo. Jurei vingança para depois do almoço.

Entre lavar a roupa pela manhã e escrever. Escrever.
Ora, sim, ainda sou uma dona de casa. Dessas à moda antiga. Com direito a bolo de fubá, leite quente e roupa no varal.
Mas, hoje, hoje não. Hoje as letras seriam mais importantes.
Sentada diante da tela, branco total, branco desprezo. Branco roupa quarada.

Li algumas coisas, respondi emails, totalmente desinspirada.  Vazio.
Voltei à janela. A mangueira ainda acariciava a casa vizinha. Traição.
Tanto fiz por essa ingrata, plantei, irriguei e ela? De flerte com os vizinhos.
Como se adivinhasse meus pensamentos, o vento balançou suas folhas e pude vislumbrar em meio ao emaranhado verde, pequeninas flores em promessa de frutos.  Sorri.
Com um pouco mais de calor - aqui faz frio - teria belas mangas. Minha mangueira estava grávida, não era mais uma adolescente.
A vida seguia seu curso.

Fechei o computador,  desisti das escritas, também eu precisava gestar para colher frutos.

terça-feira, 1 de abril de 2014

abril...

instável abril
não sabe o que diz
se chora ou se ri

se é quente ou frio
se verdades recria
se palavras inventa

dia ou noite
na inconstância dos verbos
ao outono mente

entre o verão e o inverno
ora quer ser uma borboleta
ora uma folha seca

segunda-feira, 31 de março de 2014

dos erros

traços
trago
aos pedaços

nacos
às farpas
abraço

não acho
em linha reta
meus farrapos

passo
circulando
nadas

impregnada
de um tudo
errado...