sexta-feira, 4 de abril de 2014

26


escondeu-se o dia-
entre árvores quase cinzas
o crepúsculo pia

Gestando...



E então fez-se dia. Os pássaros cantavam, as comadres gritavam com seus filhos nos quintais vizinhos, o café na cafeteira esfriava.
Da janela da cozinha pude ver os galhos da mangueira acariciando a casa ao lado de costas para mim.
E aquela maldita TPM, a dor nos seios, o sol embaçado, o piso limpo que me parecia sujo, muito sujo. Jurei vingança para depois do almoço.

Entre lavar a roupa pela manhã e escrever. Escrever.
Ora, sim, ainda sou uma dona de casa. Dessas à moda antiga. Com direito a bolo de fubá, leite quente e roupa no varal.
Mas, hoje, hoje não. Hoje as letras seriam mais importantes.
Sentada diante da tela, branco total, branco desprezo. Branco roupa quarada.

Li algumas coisas, respondi emails, totalmente desinspirada.  Vazio.
Voltei à janela. A mangueira ainda acariciava a casa vizinha. Traição.
Tanto fiz por essa ingrata, plantei, irriguei e ela? De flerte com os vizinhos.
Como se adivinhasse meus pensamentos, o vento balançou suas folhas e pude vislumbrar em meio ao emaranhado verde, pequeninas flores em promessa de frutos.  Sorri.
Com um pouco mais de calor - aqui faz frio - teria belas mangas. Minha mangueira estava grávida, não era mais uma adolescente.
A vida seguia seu curso.

Fechei o computador,  desisti das escritas, também eu precisava gestar para colher frutos.

terça-feira, 1 de abril de 2014

abril...

instável abril
não sabe o que diz
se chora ou se ri

se é quente ou frio
se verdades recria
se palavras inventa

dia ou noite
na inconstância dos verbos
ao outono mente

entre o verão e o inverno
ora quer ser uma borboleta
ora uma folha seca

segunda-feira, 31 de março de 2014

dos erros

traços
trago
aos pedaços

nacos
às farpas
abraço

não acho
em linha reta
meus farrapos

passo
circulando
nadas

impregnada
de um tudo
errado...

sexta-feira, 28 de março de 2014

sina

há essa carne
que descasco

e das vestes
desfaço

deixo pulseiras
sem braços

e pés enterro
sem sapatos

há minha alma
que despe-se

entre senhas
e metáforas

e pela vida
passa...

sem querer dela
os laços...

quarta-feira, 26 de março de 2014

enfim...

em entrelinhas
sem sins...sigo

e... impermeável
a ti, fito teu fim 

assim, sem ais
com sinais

assino tua sina
sem mim...

segunda-feira, 24 de março de 2014

das secas...

em que ontens
tão ralos e tão rasos
plantei meu hoje

esse a dobrar joelhos
a estremecer e gemer de frio
ao bocejo dos deuses

a mercê do humor alheio
um hoje em cascas finas
sem sangue nas veias

em que sonhos
tão tênues e tão frágeis
enterrei meus olhos

esses trancados a esmo
sem a espera do que foi luz
sem saber da noite, as estrelas

a mercê de outros espelhos
sonhos ocos e sem reflexo
secando do hoje, os desejos

segunda-feira, 17 de março de 2014

dos sabores...

entre uma letra e outra
derramo sobre a folha que risco
a essência que extraí da vida

e tempero poesias...

sábado, 15 de março de 2014

líquida..


em meu corpo
teu convéns
nosso amém

se sou coxas
um abrigo
te aninha

língua tua
língua minha
caminham

vai e vem
pele à pétala
alquimia

derrama teu dorso
sem prumo, só tua
quase sumo...


quarta-feira, 12 de março de 2014

agonia...



era torto o riso indefeso
e a madrugada de olhos acesos
queimou sem medo mãos ao avesso

do que foi, do que passou
nada, só nós entre os dedos
só pó no caminho do meio

restava vestir-se de versos
sentar-se na porta da poesia
fingir e fingir uma dor alheia

na espera do que não veio
no degrau de todos os defeitos
beber e vomitar  devaneios

foi a esmo todo um dia
tão prolongado por uma vida
do batismo à morte, um só suspiro...

agonia...