sexta-feira, 4 de abril de 2014
Gestando...
E então fez-se dia. Os pássaros cantavam, as comadres gritavam com seus filhos nos quintais vizinhos, o café na cafeteira esfriava.
Da janela da cozinha pude ver os galhos da mangueira acariciando a casa ao lado de costas para mim.
E aquela maldita TPM, a dor nos seios, o sol embaçado, o piso limpo que me parecia sujo, muito sujo. Jurei vingança para depois do almoço.
Entre lavar a roupa pela manhã e escrever. Escrever.
Ora, sim, ainda sou uma dona de casa. Dessas à moda antiga. Com direito a bolo de fubá, leite quente e roupa no varal.
Mas, hoje, hoje não. Hoje as letras seriam mais importantes.
Sentada diante da tela, branco total, branco desprezo. Branco roupa quarada.
Li algumas coisas, respondi emails, totalmente desinspirada. Vazio.
Voltei à janela. A mangueira ainda acariciava a casa vizinha. Traição.
Tanto fiz por essa ingrata, plantei, irriguei e ela? De flerte com os vizinhos.
Como se adivinhasse meus pensamentos, o vento balançou suas folhas e pude vislumbrar em meio ao emaranhado verde, pequeninas flores em promessa de frutos. Sorri.
Com um pouco mais de calor - aqui faz frio - teria belas mangas. Minha mangueira estava grávida, não era mais uma adolescente.
A vida seguia seu curso.
Fechei o computador, desisti das escritas, também eu precisava gestar para colher frutos.
terça-feira, 1 de abril de 2014
abril...
instável abril
não sabe o que diz
se chora ou se ri
se é quente ou frio
se verdades recria
se palavras inventa
dia ou noite
na inconstância dos verbos
ao outono mente
entre o verão e o inverno
ora quer ser uma borboleta
ora uma folha seca
não sabe o que diz
se chora ou se ri
se é quente ou frio
se verdades recria
se palavras inventa
dia ou noite
na inconstância dos verbos
ao outono mente
entre o verão e o inverno
ora quer ser uma borboleta
ora uma folha seca
segunda-feira, 31 de março de 2014
dos erros
traços
trago
aos pedaços
nacos
às farpas
abraço
não acho
em linha reta
meus farrapos
passo
circulando
nadas
impregnada
de um tudo
errado...
trago
aos pedaços
nacos
às farpas
abraço
não acho
em linha reta
meus farrapos
passo
circulando
nadas
impregnada
de um tudo
errado...
sexta-feira, 28 de março de 2014
sina
há essa carne
que descasco
e das vestes
desfaço
deixo pulseiras
sem braços
e pés enterro
sem sapatos
há minha alma
que despe-se
entre senhas
e metáforas
e pela vida
passa...
sem querer dela
os laços...
quarta-feira, 26 de março de 2014
enfim...
em entrelinhas
sem sins...sigo
e... impermeável
a ti, fito teu fim
assim, sem ais
com sinais
assino tua sina
sem mim...
segunda-feira, 24 de março de 2014
das secas...
em que ontens
tão ralos e tão rasos
plantei meu hoje
esse a dobrar joelhos
a estremecer e gemer de frio
ao bocejo dos deuses
a mercê do humor alheio
um hoje em cascas finas
sem sangue nas veias
em que sonhos
tão tênues e tão frágeis
enterrei meus olhos
esses trancados a esmo
sem a espera do que foi luz
sem saber da noite, as estrelas
a mercê de outros espelhos
sonhos ocos e sem reflexo
secando do hoje, os desejos
tão ralos e tão rasos
plantei meu hoje
esse a dobrar joelhos
a estremecer e gemer de frio
ao bocejo dos deuses
a mercê do humor alheio
um hoje em cascas finas
sem sangue nas veias
em que sonhos
tão tênues e tão frágeis
enterrei meus olhos
esses trancados a esmo
sem a espera do que foi luz
sem saber da noite, as estrelas
a mercê de outros espelhos
sonhos ocos e sem reflexo
secando do hoje, os desejos
segunda-feira, 17 de março de 2014
dos sabores...
entre uma letra e outra
derramo sobre a folha que risco
a essência que extraí da vida
e tempero poesias...
derramo sobre a folha que risco
a essência que extraí da vida
e tempero poesias...
sábado, 15 de março de 2014
líquida..
em meu corpo
teu convéns
nosso amém
se sou coxas
um abrigo
te aninha
língua tua
língua minha
caminham
vai e vem
pele à pétala
alquimia
derrama teu dorso
sem prumo, só tua
quase sumo...
quarta-feira, 12 de março de 2014
agonia...
era torto o riso indefeso
e a madrugada de olhos acesos
queimou sem medo mãos ao avesso
do que foi, do que passou
nada, só nós entre os dedos
só pó no caminho do meio
restava vestir-se de versos
sentar-se na porta da poesia
fingir e fingir uma dor alheia
na espera do que não veio
no degrau de todos os defeitos
beber e vomitar devaneios
foi a esmo todo um dia
tão prolongado por uma vida
do batismo à morte, um só suspiro...
agonia...
Assinar:
Postagens (Atom)

