quinta-feira, 6 de junho de 2013

devoção...

inocentes folhas
ao vento entregam suas vértebras
quebram-se, esfarelam-se

ainda assim,
a ele devotam suas almas
e em seu mãos, morrem...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Poesia...

e se não for vadia, indecente
promíscua não há de ser poesia
as palavras que perfilam-se frias

a poesia?

há de escorrer quente pelos dedos
em folhas brutas, brancas ou sujas
inebriar josés, judas,  genis e marias

e em noites e em dias, gritar
a olho nu seu corpo ardente
por mãos sedentas de entrelinhas

insaciável prostituta
no exercício de sua essência
em leitos amigos e inimigos, deita-se

por gosto, com gosto
não esgota-se, não medra-se
adapta-se ao gênero, ao sexo

ah, poesia...

tão mãe, amante, filha
ainda que tenha dono
bebe de outros vinhos

bem-me-quer, mal-me quer
baila e fala, às vezes é retrato...
e... com almas,  acasala-se

chora, ri, amaldiçoa, dói
doa-se, abençoa... enfurece-se
ama, ama e ama...

sempre pura, poesia...

terça-feira, 4 de junho de 2013

covardia...

tenho trancado meus sonhos
em gavetas de erros, deles um medo
encarar de frente, meus segredos

em noites negras, ouço-os
intoxicados de nãos, vivos ainda
imploram um fim, um sim...

um sim de mim?
um sim quase fóssil?
um sim sem fim?

ignoro-os,
tão pouco, em cacos, tão pó
nada faço, nada posso, afasto-me

alcanço, logo ali,
os calcanhares do dia (que zombaria )
a susurrar-me baixinho, covardia...


domingo, 2 de junho de 2013

é...

é da dor o crepúsculo
o nó no peito, a cor escura
olhos que já não buscam

um nada  junto a outro nada
mãos dadas num fio que separa
e... na boca, palavras fantasmas

é da alma, o crepúsculo
é no espelho, a luz apagada
é da carne, a morte, anunciada

silenciosa morte
num átimo do que não houve
num quase ainda vivo, estica-se

é da faca o crepúsculo
sangria em tons púrpura
num tempo, que sempre, urge

quarta-feira, 29 de maio de 2013

instinto

e vem a lingua do vento...
desembaraça, acaricia, arrepia
e elas, as folhas, gritam

terça-feira, 28 de maio de 2013

penas...


destemperado outono
em pele e em pólos se alterna
ora deus, ora verme

no meio do caminho
entre o verde e o amarelo
tira os sapatos, esfarela-se

nem é ontem, nem é hoje
pendurado nos ossos das árvores
enfia-se na língua dos pássaros

pia, o outono, pia...
sob as lágrimas do tempo
estica suas asas e chora...

quarta-feira, 22 de maio de 2013

pa la vras...

marcham palavras minhas
rumo ao caos, rumo ao abismo
rumo ao cinza, rumo aos ais

marcham
e voltam...

no abraço da língua ( que cala-se)
no beijo dos dedos ( em lágrimas)
na letra muda ( que fala )

voltam...
tortas, mancas e cegas

em linhas
 em versos
 em poesia

domingo, 12 de maio de 2013

21

no colo das mães
entre vidas, idas e vindas
adormece o domingo

segunda-feira, 29 de abril de 2013

ao nada...

enquanto passeiam meus olhos
esvai-se o tempo, o tempo do outono
o tempo dos sonhos, o tempo lá fora

escorrem-me horas...

sexta-feira, 12 de abril de 2013

uiva...

e uiva a noite tão longa
com se viúva fosse, a noiva
ainda verde, prematura-se

num canto, seus pés acesos
pisam os filhos,  do medo...
ventres insones, segredam

nos céus, azuis do avesso
suas mãos cheias de letras
em nuvens plantam espelhos

e uiva, e ainda assim uiva
tão noiva, tão morte, tão vida
em pés, em mãos, em ventres

uiva a noite...