sábado, 19 de janeiro de 2013

esquinas

velam-me essas esquinas
de olhos tão fechados
e bocas escancaradas

onde quebro palavras
ouço passos e linhas,
e mastigo minha sina

não há no meio
de meus fios, ângulos retos
são curvas, minhas ruas

dedilho e não vejo fugas
essas que  escrevem-se
e mentem entre meus dedos

encaminho descaminhos
falta-me a dobra dos joelhos
falta-me espiar outros espelhos

velam-me essas esquinas
sem que delas mate as incertezas
sem que nelas sepulte, o medo

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

19




espalha o vento
o cheiro e a voz do tempo-
farfalham os sempres

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

chove....


tudo a esmo
tudo ao acaso
tudo opaco

choram tons
choram sons
choram passos

das janelas
são as horas
dentro do relógio

tudo ao longe
tudo esconde-se
tudo escorre...

Chove...

domingo, 13 de janeiro de 2013

sem imãs...

há esse querer
arrancar raízes
fechar dessas portas
fugas e  cicatrizes

de minhas costas
apagar passos idos
num rito de desdém
dó e dor de améns

há esse querer
enterrar facas e faces
em lenta assepsia
rasgar as entrelinhas

e de meus olhos
trancar  antigas ruas
num corte seco, cirúrgico
cegar dos versos, as rimas

sábado, 12 de janeiro de 2013

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

dos silêncios

cobre-me um fio de silêncio
e eu lado a lado com os gritos
prendo e engulo vírgulas

não há nos pontos finais
reticências, parágrafos
sequer um meio, uma parada

nesse casulo, teço parábolas
metáforas, engasgos e catarses
ecos ausentes, invadem-me

mudez que não cala, embala,
de dentro pra fora dos muros
nós  que pisam e ardem

e eu aquém da palavra
rasgo do silêncio seus trapos
rasgo de minha alma, sua face

e falo, sem que minha língua
seja ouvida, aos pedaços,
num fio de poesia, escapo...


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

via crucis...

desenham-me sinuosas nuvens
sombras em  desejada rua
são de meus olhos, essa chuva
água que minha alma, turva....

tão poucos são os caminhos
são tantos e tantos meio-fios
encostas que não tem início
em noites sem estrelas guias

desdenha-me o lado de fora,
teço sementes de ocas raízes
em minhas mãos finjo atalhos
nas ladainhas que nada dizem

tão grávidas são as palavras
tão estéril minha via crucis
em um ventre que gesta janelas
nascem e morrem, minhas esperas...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

dos restos...

sobram-me espaços
num sopro de quases
e saudades

dessas estações
que vêm, espiam
e não passam

num resto
de dia que não vinga
só fica e olhos apagam

tão minha e minha
palavra, não vai
e não vem, paira

afio-me em cacos,
entre feridas e linhas
suspiram-me hiatos

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013



Fico a pensar onde estarei nessa mesma hora e mês em 2013... Os fogos que lá fora comemoram mais um ano, mais um ciclo, deixam-me em dúvida, se a comemoração é pelo ano vencido ou pelo ano a vencer... Seja como for, quem sempre vence é o tempo, os ciclos abrem-se e fecham-se e acima deles todos e de nós o tempo paira como senhor de nossas vidas numa quase condescendência, num quase desprezo.

O ano de 2012 não protagonizou o fim do mundo como alguns acreditavam,  mas, foi um ano marcante. Um ano em que findaram situações e começaram outras. Um ano de perdas, um ano de tropeços, um ano de passos lentos e intensos. Como se tivesse em seus pés correntes, grilhões a serem ceifados num esforço além dos limites. Não, não foi um ano diferente dos outros, há anos piores, anos melhores, há olhos que enxergam leveza e beleza em todos os ciclos, há olhos que só têm a escuridão, é o lado oposto da luz. Assim como tudo, sempre e sempre há um lado bom e um lado ruim, um  leve e um outro pesado. Depende onde estamos,  com quem estamos e como estamos...

Talvez eu tenha feito escolhas erradas vezes demais, talvez eu tenha esperado sementes de solos estéreis. E cá estou a fazer um inventario de 2012. Os números, as estatísticas, símbolos, 2012. A morte e a vida, o fim e o recomeço estiveram presentes nesse ano, muito presentes. Eu sei, não haveria de ser diferente, nunca é... Nós é que nos valorizamos demais, vêmos sombras em tudo, nos sentimos marcados por tudo. Mas fora, fora dos nossos umbigos existem outros universos, outros elos, outros frutos, lutas e luto.. Não somente as nossas luzes merecem e devem ser alimentadas por quem quer seja. Minha tristeza, alegria de outros. Minhas lágrimas, sede em olhos alheios.

Quase 2013, a ceia fica para o fim do ano. Quase 2013, as dúvidas seguem. Algumas darão lugar à certezas, outras serão enterradas sem solução... Quase 2013. Fogos, artifícios. Lamentam os animais tanto barulho, celebra os homens estrelas entre nuvens. É essa a vida, nem boa nem ruim, apenas focos e fogos diferentes a olhos tantos. Vem e segue seu caminho 2013.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

enfim...

do que me flagra
e sangra, são essas palavras
insanas de mim, em mim,
indômitas asas

num sonho ao avesso
revelam-me sem que delas
peça e meça ou medre letras
num tortuoso despejo

se sou casa, sou caça
sou de mim portas, janelas
camas, cadeiras, corpo
gosto e desgosto, esgoto...

do que me protegem
e escondem, são miragens
presas em mim, entrelinhas
em poesias sem fins...