sábado, 12 de janeiro de 2013

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

dos silêncios

cobre-me um fio de silêncio
e eu lado a lado com os gritos
prendo e engulo vírgulas

não há nos pontos finais
reticências, parágrafos
sequer um meio, uma parada

nesse casulo, teço parábolas
metáforas, engasgos e catarses
ecos ausentes, invadem-me

mudez que não cala, embala,
de dentro pra fora dos muros
nós  que pisam e ardem

e eu aquém da palavra
rasgo do silêncio seus trapos
rasgo de minha alma, sua face

e falo, sem que minha língua
seja ouvida, aos pedaços,
num fio de poesia, escapo...


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

via crucis...

desenham-me sinuosas nuvens
sombras em  desejada rua
são de meus olhos, essa chuva
água que minha alma, turva....

tão poucos são os caminhos
são tantos e tantos meio-fios
encostas que não tem início
em noites sem estrelas guias

desdenha-me o lado de fora,
teço sementes de ocas raízes
em minhas mãos finjo atalhos
nas ladainhas que nada dizem

tão grávidas são as palavras
tão estéril minha via crucis
em um ventre que gesta janelas
nascem e morrem, minhas esperas...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

dos restos...

sobram-me espaços
num sopro de quases
e saudades

dessas estações
que vêm, espiam
e não passam

num resto
de dia que não vinga
só fica e olhos apagam

tão minha e minha
palavra, não vai
e não vem, paira

afio-me em cacos,
entre feridas e linhas
suspiram-me hiatos

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013



Fico a pensar onde estarei nessa mesma hora e mês em 2013... Os fogos que lá fora comemoram mais um ano, mais um ciclo, deixam-me em dúvida, se a comemoração é pelo ano vencido ou pelo ano a vencer... Seja como for, quem sempre vence é o tempo, os ciclos abrem-se e fecham-se e acima deles todos e de nós o tempo paira como senhor de nossas vidas numa quase condescendência, num quase desprezo.

O ano de 2012 não protagonizou o fim do mundo como alguns acreditavam,  mas, foi um ano marcante. Um ano em que findaram situações e começaram outras. Um ano de perdas, um ano de tropeços, um ano de passos lentos e intensos. Como se tivesse em seus pés correntes, grilhões a serem ceifados num esforço além dos limites. Não, não foi um ano diferente dos outros, há anos piores, anos melhores, há olhos que enxergam leveza e beleza em todos os ciclos, há olhos que só têm a escuridão, é o lado oposto da luz. Assim como tudo, sempre e sempre há um lado bom e um lado ruim, um  leve e um outro pesado. Depende onde estamos,  com quem estamos e como estamos...

Talvez eu tenha feito escolhas erradas vezes demais, talvez eu tenha esperado sementes de solos estéreis. E cá estou a fazer um inventario de 2012. Os números, as estatísticas, símbolos, 2012. A morte e a vida, o fim e o recomeço estiveram presentes nesse ano, muito presentes. Eu sei, não haveria de ser diferente, nunca é... Nós é que nos valorizamos demais, vêmos sombras em tudo, nos sentimos marcados por tudo. Mas fora, fora dos nossos umbigos existem outros universos, outros elos, outros frutos, lutas e luto.. Não somente as nossas luzes merecem e devem ser alimentadas por quem quer seja. Minha tristeza, alegria de outros. Minhas lágrimas, sede em olhos alheios.

Quase 2013, a ceia fica para o fim do ano. Quase 2013, as dúvidas seguem. Algumas darão lugar à certezas, outras serão enterradas sem solução... Quase 2013. Fogos, artifícios. Lamentam os animais tanto barulho, celebra os homens estrelas entre nuvens. É essa a vida, nem boa nem ruim, apenas focos e fogos diferentes a olhos tantos. Vem e segue seu caminho 2013.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

enfim...

do que me flagra
e sangra, são essas palavras
insanas de mim, em mim,
indômitas asas

num sonho ao avesso
revelam-me sem que delas
peça e meça ou medre letras
num tortuoso despejo

se sou casa, sou caça
sou de mim portas, janelas
camas, cadeiras, corpo
gosto e desgosto, esgoto...

do que me protegem
e escondem, são miragens
presas em mim, entrelinhas
em poesias sem fins...

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

foice

visitou-me o Natal
não fez por onde nem quando
fincar pé em coloridos varais...

partiu num sopro
em passos largos e pra sempre
aquele que sem pressa,  foi espera

revelou-me tanto desprezo
que minha sala deu as costas
ao vermelho sem respostas

sem preces minhas,
num presente caos
foi-se, sem fé, o Natal...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

saudades...

neste colo meu
mora-me um espaço
e daquilo que não há
brotam aflitas palavras

fossem carne
cada letra acasalada
nacos de mim, arrancariam,
os lençóis da madrugada

mas, são o que não são
e disso comem e bebem
esses versos, sempre
e sempre inacabados

e vivem e morrem
num frio de sede e fome
e de novo e de novo, brotam
a esperar pelo teu mome

e vivem
e morrem
e vivem
e morrem
de saudades....

sábado, 22 de dezembro de 2012

Fragmentos...



As células me doem, as células que insistem em viver. Acordei dezembro, bem sei. Perdi quem sabe uma quinzena entre o fim do malfadado novembro e esse mês que todo ano traz o pedido de paz. Preces, num sempre à maioria negada.
Não me mexo, as paredes brancas cegam-me. Há pelo quarto indícios de outras presenças. Não as vejo... Há agulhas, sangue e dor. Marejam-me os olhos. Bem sei do meu futuro se nele persistir. Bem sei que não há surpresas em natais, não há mãos nem olhos em vestes vermelhas capazes de milagres. Acordei e de sã consciência peço pelo sono do esquecimento.

A casa parece-me estranha. Foi um longo período para um mês. Foi um breve período para tantas mudanças. Deixei o hospital com a promessa de voltar. Não cai no esquecimento, infelizmente. E tantos e tantos outros novembros e dezembros viriam... Amargo o gosto do retorno. Há ainda aquele momento entre o sono e a realidade a me levar e levar pra longe onde tudo vejo e observo, mas lá não me querem e desço e desço...

Mas, há em mim um ser que tudo navalha e que de tudo debocha, observo tantos olhos, tantas vozes a me visitarem. Ao fitá-los pergunto-me sentirão pena ou alívo? Alívio, um alívio camuflado de bondade. Dirão aos seus inconscientes: Não foi comigo, melhor assim.
E com o passar dos dias virarão as costas a esquecer de natais e anos novos. Esquecerão de leitos de dores que não são nem nunca serão seus. Bem sei...

- O que quer ganhar de presente de Natal? Perguntam-me.
- Nada.
- Livros?
Penso melhor e aquiesço, livros são sempre bem vindos.
Sinto um desassossego além do limite  no ar. Fecho os olhos. Ainda as dores só me fazem pensar num presente: "Não sentir dor". Não entenderiam. Não estaria ao alcance de ninguém.
- Está dormindo?
- Não. 
A inquietude aumenta, percebo que há algo a ser dito. Fito o vazio.  As paredes de ontens, hoje, parecem-me paredes  de um cárcere, evito-as.  Num gesto com as mãos,  mãos ainda marcadas e coloridas de roxo,  indago o porquê das reticências.
- Suas irmãs irão viajar - Respondem-me.
- Pra onde?
- Praia.
Tento me mover, não consigo, as dores aumentam.
- Ele deixou?
- Sim.
Uma simples palavra, uma simples resposta e me vem à mente uma vida, não tão longa, mas já pautada pelas privações. Nada de passeios, nada de natais, nada de nada.
- Que bom pra elas. 
Droga, odeio que me vejam chorando. As lágrimas insistem. Não posso escondê-las ou me trancar em um porão de mim mesma.
- Entenda,  ele mudou. Eu mudei.
Egoísmo meu, egoísmo. Engulo a revolta, tranco à sete chaves todas as palavras que gostaria de cuspir e vomitar no chão ali diante de minha realidade.
- Seu acidente... Ninguém teve culpa.
- Eu sei.
- Muita coisa foi tirada do lugar. Não pensamos como antes. O sangue...
- Quantas foram?
- Não sabemos ao certo, talvez quatro ou cinco transfusões.
Silencio-me, gostaria de ficar sozinha. Não fico. A voz continua. Meu egoísmo cega-me.
- Mas antes da viagem haverá o Natal. Teremos uma ceia. Seu namorado virá.
Desespero-me, desde as ferragens a nítida sensação que perderia também o namorado, ele me deixaria, estava escrito. Ceias para quê ceias? Eram proíbidas todas as ceias, todos os ritos. Pecado, diziam-me. Amar a Deus sobre todas as coisas. Coisas, não concebo, não consigo achar palavra que  substitua, coisa. Tudo são coisas. E Deus deveria ser maior do que essas coisas. Tantas e tantas vezes indaguei, coloquei-me contra, argumentei. Não havia ouvidos, não havia espaço para dúvidas. Faltava-me a fé, diziam.
- Comemoraremos o quê?- Pergunto num to jocoso.
- A vida.
- Não é tarde pra isso?
- Está viva.
Viva, estou viva.... A que preço? Em troca, uma ceia de Natal, uma viagem que nunca será minha.
 Malas a serem feitas, alimentos a serem preparados. Ouço a babúrdia, risos, correria. Cochichos. 
Tão amarga é o gosto da água que me servem. De espinhos feito meu leito. Há fagulhas a queimarem minha carne mutilada, há o sangue de outro em minhas veias. O meu sangue, o meu... perdeu-se, escorreu rumo ao precipício de mim mesma.


- Como está?
Não sabia ao toque quem seria. Não sabia da voz o sorriso, a lágrima ou o escârneo. 
Mas identifiquei a sombra masculina do outro lado do telefone antes de fornecer minha resposta. Foram muitos anos desde a primeira ceia, mutos anos num quebra-cabeças sem fim.
- Bem, estou sempre bem
- Te admiro por isso.
- É mesmo?
- Claro, tem dúvidas?
De mim só um suspiro impaciente conseguiu arrancar.
 - Quantos anos? - Continou -
- Faz diferença? Olha,estou ocupada. Véspera de Natal.
- Desculpe. Pensei em pedir desculpas.
-  Desnecessario.
Desligo o telefone sentindo calafrios, rios de lembranças invadem-me.  Só mais uma perda, só mais uma. Foi-se com a primeira ceia, foi-se a ilusão. Não posso e não devo chorar.

Todos à mesa. Inclusive o pobre e infeliz porquinho. Faltava-lhe a maçã. Bobagem, mais uma bobagem. Bobagens necessarias. Crianças felizes,  adultos a tecerem comentarios , uns inteligentes outros nem tanto. Noto o esforço, a competição ainda entre irmãs, os filhos,  os planos de fim de ano. Outras viagens. Nada mudou.
- Ainda tem dores? Não me parece bem - Diz-me uma de minhas irmãs ao notar meu gesto de impaciênca com meus pensamentos.
- Estou bem, dores só as fantasmas. Mas fantasmas não me assustam.
- Nunca assustaram - Uma outra irmã afirma.
Não gosto de ser o centro das atenções. Antes que voltem ao meu passado, melhor retirar-me. Tento levantar-me e me impedem...
- Sabe que se não fosse seu acidente as coisas teriam sido diferentes. Para pior - É a vez do irmão mais jovem opinar.
As coisas, sempre coisas. Sinto-me inquieta, ingrata. 
- Foi há tanto tempo, teriamos contornado de um jeito ou de outro nossos percalços -
Peço licença, afasto-me.
Sozinha, como sempre fui e talvez sempre serei, penso em todos os natais, penso no dias que foram-se, nas pessoas, nos sonhos, nos milagres inexistentes. Penso no sacrificio de Cristo, na carne e no sangue... No sangue... Sangro.


expectro...

inquieta noite
que mãos penetra
em sempre ontens,
quase hoje

lança-me
frases apagadas
e minha face
navalha...

não fossem
ontens, um nada,
não sangraria, eu,
tantas palavras

sabe a noite
e como sabe,
descamar
minha carne

ah, meros
queros, pele
pés, joelhos
pretérito...

meros
sempre meros
nunca olhos
nunca elos

segue a noite
sigo a noite
só, cega
in ...versa