domingo, 8 de julho de 2012

Eras...














era das uvas
o sabor do dia
cascas e chuva

era do vinho
o cheiro das horas
instantes, pele, colo...

era uma era
ao alcance dos olhos
escorrida e já morta

não importa...
era o grito dos versos
em meio às trevas

uma poesia ainda quente
no gelo verde das eras
tão amarelas...

erraram as eras
não importa... havia o beijo
das almas em meio às letras...

sábado, 7 de julho de 2012

Basta...













se conheço dos sóis
os gestos de desprezo
vislumbro nas cores do dia
o instante de um "chega"

naqueles torrões de terra
onde em água-viva tive pés
colhi nos sonhos das margaridas
a  tristeza de uma flor sem fé

não é das mãos a dor que escorre,
ou das trilhas solitárias em desdém
a agonia  das letras recém caídas,
são dos sonhos, dor e agonia

sonhos que ferem, machucam
arrancam das pupilas, o riso,
ferem e brotam em palavras virgens,
cálice, prece, coágulos, missa...

é hora do basta
um  não aos sonhos
uma lápide aos olhos,
renúncia e sacrifício....

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Segredo

















 o quê sabe
de minhas metáforas
o quê enxerga
em minhas palavras
há de ser,  nada....

cegos véus
de meus eus,  olhos teus
aqueles que não me leem,
mas  insiste em tua alma
a minha procurar

 o quê mastiga
de minhas letras
o quê engole
de meus versos
há de ser,  espera

esses círculos
essas esferas
vícios meus, minhas feras
mãos sempre em cio
sempre tua,  a poesia

o quê presencia
de meus arremedos,
o quê escrevo
nas entrelinhas
há de ser,  segredo

Teias...










em restos,  teço-me
desembaraço a pele
embaraço-me em teias

estendidos rituais
aos punhais e à lua
alinhavo minhas veias

tão dentro de mim
descasco horas, sem fome
sem nome, esqueço-me

aos meus porões
arrasto letras, verdes
e maduros segredos

medro, meço-me
tessitura, textura
fissuras

gotejo
enlouqueço
escrevo...


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Palavras...














 o quê me inunda
são as pedras desses muros
pedras brutas, espiãs
em águas turvas

diz-me a pele
das rosas desse cárcere
um cultivo de espinhos
à olhos nus

se é na carne
das letras, na dor
o espasmo dessas águas,
nego-me aos versos...

pedras, rosas,
pele, espinhos, olhos
são palavras, apenas
   palavras...

domingo, 1 de julho de 2012

Só...















jantando gêmidos
aqui e ali,  habitei
   cansaço

   tantos cacos
fincados em pratos
mastigando amanhãs

não, não quero mais
os versos nas pontas
   dos garfos

a beira da estrada é minha
deixo a mesa,  as facas,
 a fome e a sede

em mim, encaminho-me
não te sirvo, sigo eu
    sozinha...

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cárcere












num cárcere de letras
sonha a carne minha
tocar  no fio do espelho
o doce gume da poesia

do etéreo, desejo sins,
já não importam-me os pés
nessa fuga de minha terra
corto caules, corto elos

ilusão dos ombros meus
carregar entre as sombras
o sopro daquele poema
ainda feto, ainda infecto

ao fogo de tantas lágrimas,
insisto, nada existe, nada resiste
farta a palavra entre os dentes
num grito mudo, cala-se, espera

só mais um passo
só mais um corte
enfim deixar o cárcere
matar da poesia, a carne....


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cismo...












cismo
ainda
com as cinzas
um ir
e vir
gritam..


cismo
ainda
com as rosas
um ir
e vir
brotam

cismo
ainda
com  o desdém
um ir
e vir
além...

cismo
ainda
com as rezas
um ir
e vir
esperam ...


Entrelinhas...













ronrona entre as paredes
estranha inquietação, nua,
palavras mudas de mim escoam
sem respostas, sem eco,  ocas...

das bobagens minhas
não escritas, tantas poesias a ti
minha alma entoa, geme... suspira
bo ba gens,  não ditas, malditas

eu sei,  não sabe você
dos nossos laços, nossa morada,
 nos versos meus, tristes bastardos,
não ouve você, o meu chamado...

se te acolho, te abraço
é nesse espaço onde não te acho
não há aqui o medo do deboche
esse que imagino em teus olhos

nas letras que lanço num céu de acaso
sonham meus dedos tocar tua face,
as dores do teu cansaço... essas
em minhas entrelinhas, afago...


segunda-feira, 25 de junho de 2012

É inverno...













é inverno,  minhas células nuas
escamas, derramam em favos
um frio nas mãos, nos cabelos
 e essa água entre os olhos

nenhum pedaço de pano
nenhuma ranhura no gelo
é inverno, mantas de orvalho
ruas,  faces, luas,  inundam

ao invés de flores, lenços
nos bolsos, o inverno dos dedos
encolhidos, retraídos, escondidos
do toque, só o desejo em casca

é inverno, um leito de desdém
estendido, branco, limpo e agudo,
cabisbaixa à espera de um abrigo
minha poesia, em pétalas, mingua...