domingo, 24 de junho de 2012

É dia...











é dia de recolher palavras-
expostas... sem saliva secaram
sem olhos, sem respostas

é dia de mascarar feridas
se em sangue vivem, delas bebo
numa taça de vinho, já morta

é dia de esconder a face
um basta ao escârneo do retrato
aquele, onde escondo minha imagem

é dia, escuro, um sol cinza
no amarelo dos dedos, um  riso finge
malvado, faz das réstias, suas facas...

é dia, é dia, é dia, ainda
que todas as minhas células
gritem  que não, é dia ...


sexta-feira, 22 de junho de 2012

13


o mau humor das portas
entristece o bom inverno-
 lacrimejam as horas

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Feto














doem-me a cabeça
a garganta, músculos
e visceras

no utero do dia
ainda mal formado
rebela-se o feto

indigestas palavras
servidas à mesa
envenenam meus versos

tão pouco peço
uma pedaço de folha
um lápis, uma janela

menos ainda me cedem
sequer um metro quadrado
de sonhos e sossego...

dói-me a carne
dói-me a verve
aborto meu feto...

terça-feira, 19 de junho de 2012

12













1.
num quase inverno
um fechar portas e janelas
engana a pele

2.
olhos alongados
pelos buracos da noite
fogem os gatos

3.
silenciam-se os  pés
só o burburinho das mãos
toca o coração



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Auto Flagelo













dó, dói,
duas, tres doses
metáforas, blues,  arte
vinagre

coisas, foices
lama e gume
lingua, salitre
descarte

espinho, ninho
catre da carne
palavra, tão tarde
esvai-se...

ah, como debocho
desses meus pés que me faltam
das pobres mãos que espasmam
esculpindo  minha lápide

tudo é flagelo
do toque ao beijo
fla- ge - lo e devaneios
 pedras que ardem

mareja a pele
meu asco, amarro,
pupilas de aço
navalham-me...

sábado, 16 de junho de 2012

Disfarce...












recebo em branco
palavras dúbias, dúvidas
mão dupla, tortura

maçãs agridoces
em pratos de amargura
ansiando minhas unhas

e desses lamentos em carne viva
tão fundo desejam, imploram
de meus dedos, o abismo...

descasco, encaro meus frutos
ouço deles, ais,  tantos gritos
a escorrerem de mim, líquidos...

música, música e música
caminhos, encruzilhada, navalhas
insistem, dúvidas, dúvidas...

ainda em pedaços, aos nacos
palavras, difarces, quases
escondem de mim, suas faces...



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Presa...




















cansam-me as horas
num verso que já morto
 vive em minhas costas

tivesse minha alma, asas
sob o negro gume da palavra
  libertariam-m a carne

ao contrario do que pensam
 asas, sugam, consomem
    ossos, pó, verbos

é o preço, é o peso
sem asas, sem trocas
 presa... letras, aborto



terça-feira, 5 de junho de 2012

E...



















há brechas no medo
lascas entre parênteses
saliva, suor, apelo...

 um cio descalço
silêncio e segredo
caminhando no peito

liquida...

ventre do desejo
fome, vinho,  palavras
seda em degredo

 um tudo ao meio-
nos lábios das letras
 riachos, despejo...




quinta-feira, 31 de maio de 2012

domingo, 27 de maio de 2012

Finito...











trincou ao meio
aquele músculo no peito
não houve, gesto ou jeito...

pedaços lado a lado
flores cegas e surdas
sangrando em caule seco

era tão simples a cura
colher um  beijo sem culpa
um gole dos olhos, na nuca

mas...

veio o nada, o nada veio
racharam-se paredes e veias
morreu o amor,  de fome e sede