quinta-feira, 17 de maio de 2012

Doce...














de imagem em imagem
centrifugo tuas palavras
fel em açúcar, disfarçado

eram doces, tuas mentiras
pútridas frases, mascaradas
perfídias carameladas..

tão doces, que é dor
a ausência do pecado
no beijo não dado

tão doces, que é amargo
o gosto das carícias
esquecidas ao acaso

tão doces, que na morte
apenas na morte, a paz
encontrará  sua resposta..

terça-feira, 15 de maio de 2012

09










1.
revela o vento
o amarelo entre o verde-
outono em êxtase

2.
tão pequenina
atravessou céus e nuvens
réstia divina

3.
sábio o felino
de nossa vã filosofia
alimenta os olhos

domingo, 13 de maio de 2012

Portas...


Arranhava a madeira dura e bruta. Lascou a carne muitas vezes nesse exercício de subserviência e foram poucas as vezes que aquela porta se abrira, infímas vezes para matar sua fome.  Sobrevivia a mercê das migalhas recebidas pelas frestas daquela alma tão caridosa...  Em dias de sorte um afago, um sorriso mais luminoso lhe enchia de esperanças.
Não se atrevia a deixar seu lugar, estava presa, presa àqueles farelos, o olhar fixo no mesmo ponto.
Um medo a impedia de olhar para os lados, atrás o vazio, à frente só existia a porta.

Ele confiante em seu poder, dentro do seu mundo deliciava-se com seus manjares e com suas aquisições adquiridas pela caça. Um predador vaidoso.  Vaidoso e cuidadoso. Mantinha ao seu alcance, uma, duas, três, mais e mais presas. Não era tão complicado. Muitas por trás de suas portas arrastavam-se em posição de devoção amorosa. Agendava sua atenção minuciosamente. Nada poderia dar errado.

Mas um belo dia transformou o egoísmo do seu sol em um buraco negro. A tempestade veio, veio o obscuro, o oco no fim do mundo. Ela, somente ela, dolorida e com frio, cansada de pedir que a acolhesse procurou outro abrigo. Ao girar seu corpo em outra direção, encontrou calor, luz e alimento... Num pequeno gesto, sem machucar-se, sem implorar, outra porta deu-lhe passagem, dessa vez iluminando-a por inteira. E ela,  viu-se plenamente acolhida e aceita.
Bastou  tão pouco, bastou ousar, bastou desviar o curso do seu olhar ...

sábado, 12 de maio de 2012

Do Fim...











estranho é o fim
deslexos versos pastam
na secura das letras

dias, meses, anos
palavras agonizam
nas labaredas dos dedos

nada há de restar
do pão amanhecido
nas barbas do medo

e aquele reflexo
que mente, pois mente
engolirá meus segredos

nesse espelho limpo
nem risos, nem linhas
apenas, cinzas, cinzas...



sexta-feira, 11 de maio de 2012

Inapta...



escorregou minha pele
na carne da música
pedregulhos aguçados
ferindo nuvens

o que era névoa
um fantasma  feriu
 filho das fusas
escalando muros

num estilhaço
o tropeço dos dedos
entre o branco e o negro
esfolou o silêncio

era o passado
arrancando do ócio
um compasso desfeito
no sangue do blue...

terça-feira, 8 de maio de 2012

08


 triste sinfonia
é da cigarra o lamento
ao sol de outono

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Fuga














batem os cascos
ao vento, palavras

ouço,  no assovio
do tempo, estacas

arrepia a pele,
um medo, um sabe

na baba presa
aos muros, murros

braços, cruzam
esquinas, vazias

lá fora, roupas
ao relento, urram

aqui dentro, treme
uma poesia, nua...



domingo, 6 de maio de 2012

Vida



Tão estranho como as pessoas têm medo da morte. Cada vez que escrevo sobre ela, sinto como se mil olhos me perfurassem exigindo meu silêncio.  Errado enaltecer o fim, errado buscar uma renúncia.
Mas... Ironicamente leio tantos textos cuspindo sangue, reverenciando a dor, alguns até mesmo se orgulham do desejo de matar por motivos futeis... Sinceramente, cada um sabe de si, cada um sabe do sangue que corre e escorre das veias rumo sempre, sempre ao mesmo rio... Não, não o de lágrimas, das larvas. Mas é intragável o ar de superioridade que alguns deixam escorrer sobre o que desconhecem ao enaltecerem ou escarnecerem vida e morte.

Mas tambem eu, um dia ou dois ou três,  vi-me em um tênue fio entre a vida e a morte, não, não muitas vezes, algumas vezes. As tarefas inacabadas sempre me impediram de dizer à ela, a morte: Estou pronta...
Grande bobagem. Hoje sei, que elas nunca findam, as tarefas...
Cedo ou tarde, deixaremos esse engôdo, esse lodo, talvez para buscar morada em um pior, mas é inevitável a despedida, o que fazemos vezes ou outra é protelar. E nessa despedida sempre haverá o assoalho que ficou sem varrer, o beijo que não foi dado, a chaleira no fogo, aquele livro sem um fim, o vazio da alcova... A palavra não dita...

Voltando aos escritos que leio aqui e ali... Fico a imaginar se alguns escritores sabem exatamente o que é dor, o que é sangrar literalmente, o que é ter a carne lanhada, o que é ter a alma escurraçada para o exilio de si mesma... Acho que não. Ainda que sofressessem dores emocionais, não vislumbro neles feridas na carne, feridas em outdoors, feridas nojentas que acolhem o que tem de pior, a piedade, a subserviência, a lenicência em troca de lenitivos. Não, acho que não conhecem o gosto de sangue entre os dedos, entre as coxas, entre os pés, entre os dentes, entre os ossos... Não, não conhecem.

Talvez por isso sinta um desprezo tão grande por essa gente que se enche de revolta e que fugiria covardemente de serem sangrados em vida, mas que insistem em pixar murais e mais murais com um vermelho literal que só conhecem em metáforas. Que piada... Mas é bonito, oras, se é... O vermelho atrai, o sangue fascina. Pessoa já dizia que o poeta é um fingidor...

Do sangue de volta à vida e à morte... De volta à hipocrisia de se escrever o que não se sente, de se escrever do corte que não houve, do carmim que só foi visto ao vivo e a cores em uma tela, em uma janela, em uma página de um site. Afinal isso é vida ainda que finja ser morte, é vida...

E eu hipocritamente vou fingir que desconheço da vida, a morte, por enquanto...


sábado, 5 de maio de 2012

Solidão














é tão meu esse vácuo
que nele para outros seres
não há espaço

é tão fundo meu céu
que nele nascem e morrem
dos sonhos, os olhos

é tão oca  minha morada
que nela costuro e colho
as blasfemias de meus ais

é tão frio o meu inferno
que nele estendo meus dedos
e incinero-os ao gelo

é  tão solitario o meu grito
que nele, letras e palavras
comem e bebem,  súplicas



quarta-feira, 2 de maio de 2012

07










1.
vagarosamente
passa a tarde pelas horas-
lacrimejam os olhos

2.
de fio em fio
tece o ninho, a andorinha
à noite esfria

3.
são do lusco-fusco
as últimas réstias do dia-
arrepio e luvas