sexta-feira, 11 de maio de 2012
Inapta...
escorregou minha pele
na carne da música
pedregulhos aguçados
ferindo nuvens
o que era névoa
um fantasma feriu
filho das fusas
escalando muros
num estilhaço
o tropeço dos dedos
entre o branco e o negro
esfolou o silêncio
era o passado
arrancando do ócio
um compasso desfeito
no sangue do blue...
terça-feira, 8 de maio de 2012
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Fuga
batem os cascos
ao vento, palavras
ouço, no assovio
do tempo, estacas
arrepia a pele,
um medo, um sabe
na baba presa
aos muros, murros
braços, cruzam
esquinas, vazias
lá fora, roupas
ao relento, urram
aqui dentro, treme
uma poesia, nua...
domingo, 6 de maio de 2012
Vida
Tão estranho como as pessoas têm medo da morte. Cada vez que escrevo sobre ela, sinto como se mil olhos me perfurassem exigindo meu silêncio. Errado enaltecer o fim, errado buscar uma renúncia.
Mas... Ironicamente leio tantos textos cuspindo sangue, reverenciando a dor, alguns até mesmo se orgulham do desejo de matar por motivos futeis... Sinceramente, cada um sabe de si, cada um sabe do sangue que corre e escorre das veias rumo sempre, sempre ao mesmo rio... Não, não o de lágrimas, das larvas. Mas é intragável o ar de superioridade que alguns deixam escorrer sobre o que desconhecem ao enaltecerem ou escarnecerem vida e morte.
Mas tambem eu, um dia ou dois ou três, vi-me em um tênue fio entre a vida e a morte, não, não muitas vezes, algumas vezes. As tarefas inacabadas sempre me impediram de dizer à ela, a morte: Estou pronta...
Grande bobagem. Hoje sei, que elas nunca findam, as tarefas...
Cedo ou tarde, deixaremos esse engôdo, esse lodo, talvez para buscar morada em um pior, mas é inevitável a despedida, o que fazemos vezes ou outra é protelar. E nessa despedida sempre haverá o assoalho que ficou sem varrer, o beijo que não foi dado, a chaleira no fogo, aquele livro sem um fim, o vazio da alcova... A palavra não dita...
Voltando aos escritos que leio aqui e ali... Fico a imaginar se alguns escritores sabem exatamente o que é dor, o que é sangrar literalmente, o que é ter a carne lanhada, o que é ter a alma escurraçada para o exilio de si mesma... Acho que não. Ainda que sofressessem dores emocionais, não vislumbro neles feridas na carne, feridas em outdoors, feridas nojentas que acolhem o que tem de pior, a piedade, a subserviência, a lenicência em troca de lenitivos. Não, acho que não conhecem o gosto de sangue entre os dedos, entre as coxas, entre os pés, entre os dentes, entre os ossos... Não, não conhecem.
Talvez por isso sinta um desprezo tão grande por essa gente que se enche de revolta e que fugiria covardemente de serem sangrados em vida, mas que insistem em pixar murais e mais murais com um vermelho literal que só conhecem em metáforas. Que piada... Mas é bonito, oras, se é... O vermelho atrai, o sangue fascina. Pessoa já dizia que o poeta é um fingidor...
Do sangue de volta à vida e à morte... De volta à hipocrisia de se escrever o que não se sente, de se escrever do corte que não houve, do carmim que só foi visto ao vivo e a cores em uma tela, em uma janela, em uma página de um site. Afinal isso é vida ainda que finja ser morte, é vida...
E eu hipocritamente vou fingir que desconheço da vida, a morte, por enquanto...
sábado, 5 de maio de 2012
Solidão
é tão meu esse vácuo
que nele para outros seres
não há espaço
é tão fundo meu céu
que nele nascem e morrem
dos sonhos, os olhos
é tão oca minha morada
que nela costuro e colho
as blasfemias de meus ais
é tão frio o meu inferno
que nele estendo meus dedos
e incinero-os ao gelo
é tão solitario o meu grito
que nele, letras e palavras
comem e bebem, súplicas
quarta-feira, 2 de maio de 2012
07
1.
vagarosamente
passa a tarde pelas horas-
lacrimejam os olhos
2.
de fio em fio
tece o ninho, a andorinha
à noite esfria
3.
são do lusco-fusco
as últimas réstias do dia-
arrepio e luvas
terça-feira, 1 de maio de 2012
domingo, 29 de abril de 2012
Imobilidade...
lágrimas
e saliva, derramam
vida
estáticas
as mãos, enxergam
vidros
raizes
abortam dos ais,
vícios
sem risos
a pele, fenece,
em vincos
tão triste
a alma, corta
os vínculos...
sábado, 28 de abril de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Abstinência...
A palavra, abstinência, me remete a outra, vício. Acredito que estejam intrinsecamente ligadas.
Abster-se, deixar de fazer, renunciar a algo que nos dá prazer. Mas um prazer não necessariamente nos faz bem. É o caso das drogas. Prazer tão momentâneo de uma cobrança absurda e de um preço muito alto.
E assim são alguns amores.
Amores que nos levam aos céus e nos mostram as portas do inferno. São eles também vícios.
Benditos quando atendidos, malditos quando não recíprocos.
O email que não chega, a hora que passa sem um telefonema. Um olhar atravessado quando juntos. Efeitos colaterais que ferem, que fazem viagens imaginarias pelo ciumes, pelas dores, pela falta de autoestima...
Quando esses efeitos colaterais são maiores, mais presentes do que qualquer prazer, do que nossa paz de espírito, não sei, ou talvez saiba que seja a hora de nos desintoxicarmos.
Ao espernearmos, ao vertermos lágrimas, ao quebrarmos nossos frascos, o vazio nos espera...
Da renúncia à abstinência. Horas enganosas, nas primeiras, um certo alívio.
Uma esperança de esquecimento. Os dias completam seus ciclos.
Mas... Um cheiro, um gosto, um horario, uma música, um costume trazem a ilusão da volta, a ilusão de uma letra em conciliação... Nada, só o nada retorna.
Tal qual um viciado, nada alimenta, nada satisfaz...
Então fico eu a pensar, talvez seja o caso também de seguir os passos da abstinência por um dia, por mais um dia e por mais outro dia... Quem sabe, assim, esse vício chamado amor, adormeça em algum canto de nossos corpos e almas devolvendo o nosso equilíbrio.
Bem, para isso, melhor evitar o invólucro, o corpo, a palavra, a alma que nos vicia... Ao menos por hoje, num sempre hoje.
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