sábado, 28 de abril de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Abstinência...
A palavra, abstinência, me remete a outra, vício. Acredito que estejam intrinsecamente ligadas.
Abster-se, deixar de fazer, renunciar a algo que nos dá prazer. Mas um prazer não necessariamente nos faz bem. É o caso das drogas. Prazer tão momentâneo de uma cobrança absurda e de um preço muito alto.
E assim são alguns amores.
Amores que nos levam aos céus e nos mostram as portas do inferno. São eles também vícios.
Benditos quando atendidos, malditos quando não recíprocos.
O email que não chega, a hora que passa sem um telefonema. Um olhar atravessado quando juntos. Efeitos colaterais que ferem, que fazem viagens imaginarias pelo ciumes, pelas dores, pela falta de autoestima...
Quando esses efeitos colaterais são maiores, mais presentes do que qualquer prazer, do que nossa paz de espírito, não sei, ou talvez saiba que seja a hora de nos desintoxicarmos.
Ao espernearmos, ao vertermos lágrimas, ao quebrarmos nossos frascos, o vazio nos espera...
Da renúncia à abstinência. Horas enganosas, nas primeiras, um certo alívio.
Uma esperança de esquecimento. Os dias completam seus ciclos.
Mas... Um cheiro, um gosto, um horario, uma música, um costume trazem a ilusão da volta, a ilusão de uma letra em conciliação... Nada, só o nada retorna.
Tal qual um viciado, nada alimenta, nada satisfaz...
Então fico eu a pensar, talvez seja o caso também de seguir os passos da abstinência por um dia, por mais um dia e por mais outro dia... Quem sabe, assim, esse vício chamado amor, adormeça em algum canto de nossos corpos e almas devolvendo o nosso equilíbrio.
Bem, para isso, melhor evitar o invólucro, o corpo, a palavra, a alma que nos vicia... Ao menos por hoje, num sempre hoje.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
haikai 06
1.
na chuva que cai
o bocejo do felino
aquece o ar
2.
de gota em gota
marcado o compasso
solitário pássaro
3.
de bem com a vida
sua majestade o ipê
esquece o frio
domingo, 22 de abril de 2012
Passou...
se eu sou
já não era sem tempo
se eu fui, perderam-se
meus sempres...
não há volta
na hora derramada
não há prosa
na palavra calada
aos espinhos vindouros
dedico minhas pétalas
um paralelo na janela
e um voo sem asas...
sábado, 21 de abril de 2012
Do Fim...
- Achei que fosse diferente...
Murmurou ela olhando para as mãos vazias, vazias e desprezadas.
Murmurou ela olhando para as mãos vazias, vazias e desprezadas.
- Achou errado. Segui meu caminho.
Tão tácita foi a resposta que sentiu-se constrangida. Tão longe do homem doce que aprendera a amar, tão diferente da imagem por ela construída.
Suspirou tentando ganhar tempo. Sabia que fora esse o combinado, mas no fundo acreditava em vínculos além do tempo, além do espaço.
Tão tácita foi a resposta que sentiu-se constrangida. Tão longe do homem doce que aprendera a amar, tão diferente da imagem por ela construída.
Suspirou tentando ganhar tempo. Sabia que fora esse o combinado, mas no fundo acreditava em vínculos além do tempo, além do espaço.
- Mas...
- Não tem mas, acabou. Minto... Não acabou, nunca existiu.
Eco, oco, ele destilando aquele ar de superioridade, ela no vacuo.
As lágrimas impediram de ler o resto.
Fechou as janelas para o passado, deletou o coração com a borracha da decepção.
Quando voltou a percebê-lo, havia um instinto de destruição entre seus dedos, sorriu perigosamente...
- Ok, aqui estão suas letras, seu conto.
Disse enquanto acendia uma chama em seus olhos.
O medo passou pelo semblante covarde daquele que um dia lhe jurava amor e fidelidade. Amor? Nem três meses e já dizia amar outra. Três meses era seu prazo de validade, três meses afastados, três meses sem que rabiscasse sobre aquelas folhas, três meses esperando por aquele momento. E nada, era do nada o presente das palavras.
Rasgou uma a uma as páginas daquela historia e ateou fogo aos pedacinhos amputados sem dó ou piedade. O rosto de anjo como Dorian Gray foi transformarndo-se em algo horrendo, covarde, vil em meio às letras borradas pelo negro que nasce do fogo... Desmanchando-se em cinzas envenenou o ar com o cheiro de sua alma incinerada.
Fim.
Só mais um conto mal escrito, mal resolvido em meio ao lixo literario que se habituara a produzir.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Abstrato...
deixou o pó das letras
lá, onde as palavras
já não dizem nada...
esse gosto com cheiro
de saudades, ilusão
pelo caos pisoteada
nem quase, nem talvez
do concreto é feito
o teu descaso
uma lâmina cega
certeira, a tecer o fim
do abstrato...
quinta-feira, 19 de abril de 2012
haikais 05
1.
é do indio o dia-
desculpas em amarelo
o branco envia
2.
bela hidrelétrica-
os pés que louvam a terra
suas ocas perdem
Maldade...
chegou num ramalhete
de saudades, abraços
e beijos enlaçados
estavam ali, carícias
à espera do meu sopro
ao toque de minha boca
estendi minha carne,
em troca do teu vício
doei meus gêmidos
pelas frestas do desejo
espiei teu olhos açucarados,
capturei teu escârneo...
não era minha a tua saudade,
era tua ausência a me assombrar
num gesto de maldade...
quarta-feira, 18 de abril de 2012
O Tudo e o Nada...
O desejo de me estabelecer ao nada, impera. Impera e vocifera. Um querer esquecer o universo, minha pele, meus dentes, minhas materia. Como se fosse possível caminhar rumo ao abismo sem arrastar comigo o cordão que me liga ao umbigo do tudo. Esse meu tudo, tão vazio, tão sem sentido, tão luto...
Às minhas costas sinto o hálito das sombras que abandonei nos vãos dos medos, nos ombros o peso de minhas faces largadas à margem do acaso. Sem ninho, sem música, sem rumo, famélicas, esquálidas. Açoitam-me, cobram-me, cobras criadas, minhas servas, meus sangue-sugas, tão sujas... Faces, fases, quases... Nuas...
Elos a tecer correntes, a aprisionar a alma, a escravizar a carne. Não há fuga, há o limbo cada vez mais fundo. Do nada, não tenho o percurso, não tenho o prumo. O nada não me abraça, não me caça. Sou eu entre as grades do futuro, entre os passos sempre, sempre dentro dos mesmos muros... Nem meu uivo, ouço, nem meus cabelos teço, nem meus dedos obedeço... Fantoche sou, bebo, me alimento, retiro a roupa, ao bel prazer dos segundos que me pinçam e me atiram no colo desse tudo. Toneladas de fios que me ligam ao utero do mundo...
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