quinta-feira, 26 de abril de 2012

haikai 06










1.
na chuva que cai
o bocejo do felino
aquece o ar

2.
de gota em gota
marcado o compasso
solitário pássaro

3.
de bem com a vida
sua majestade o ipê
esquece o frio

domingo, 22 de abril de 2012

Passou...












se eu sou
já não era sem tempo
se eu fui, perderam-se
meus sempres...

não há volta
na hora derramada
não há prosa
na palavra calada

aos espinhos vindouros
dedico minhas pétalas
um paralelo na janela
e um voo sem asas...

sábado, 21 de abril de 2012

Do Fim...





- Achei que fosse diferente...
Murmurou ela olhando para as mãos vazias, vazias e desprezadas.
- Achou errado. Segui meu caminho.
Tão tácita foi a resposta que sentiu-se constrangida. Tão longe do homem doce que aprendera a amar, tão diferente da imagem por ela construída.
Suspirou tentando ganhar tempo. Sabia que fora esse o combinado, mas no fundo acreditava em vínculos além do tempo, além do espaço.
- Mas...
- Não tem mas, acabou. Minto... Não acabou, nunca existiu.

Eco, oco, ele destilando aquele ar de superioridade, ela no vacuo.
As lágrimas impediram de ler o resto.
Fechou as janelas para o passado,  deletou o coração com a borracha da decepção.
Quando voltou a  percebê-lo, havia um instinto de destruição entre seus dedos, sorriu perigosamente...
- Ok, aqui estão suas letras, seu conto.
Disse enquanto acendia uma chama em seus olhos. 
O medo passou pelo semblante covarde daquele que um dia lhe jurava amor e fidelidade. Amor? Nem três meses e já dizia amar outra. Três meses era seu prazo de validade, três meses afastados, três meses sem que rabiscasse sobre aquelas folhas, três meses esperando por aquele momento. E nada, era do nada o presente das palavras.
Rasgou uma a uma as páginas daquela historia e ateou fogo aos pedacinhos amputados sem dó ou piedade. O rosto de anjo como Dorian Gray foi transformarndo-se em algo horrendo, covarde, vil em meio às letras borradas pelo negro que nasce do fogo... Desmanchando-se em cinzas envenenou o ar com o cheiro de sua alma incinerada.
Fim.
Só mais um conto mal escrito, mal resolvido em meio ao lixo literario que se habituara a produzir.

Ciclos



ao sugo, vertem as horas
  brancas ou negras, num sempre,
                vida e morte, pedem...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Abstrato...













deixou o pó das letras
lá, onde as palavras
já não dizem nada...

esse gosto com cheiro
de saudades, ilusão
pelo caos pisoteada

nem quase, nem talvez
do concreto é feito
o teu descaso

uma lâmina cega
certeira, a tecer o fim
do abstrato...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

haikais 05


1.
é do indio o dia-
desculpas em amarelo
o branco envia

2.
bela hidrelétrica-
os pés que louvam a terra
suas ocas perdem


Maldade...











chegou num ramalhete
de saudades, abraços
e beijos enlaçados

estavam ali, carícias
à espera do meu sopro
ao toque de minha boca

estendi minha carne,
em troca do teu vício
doei meus gêmidos

pelas frestas do desejo
espiei teu olhos açucarados,
capturei teu escârneo...

não era minha a tua saudade,
era tua ausência a me assombrar
num gesto  de maldade...



quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Tudo e o Nada...




O desejo de me estabelecer ao nada, impera. Impera e vocifera. Um querer esquecer o universo, minha pele, meus dentes, minhas materia. Como se fosse possível caminhar rumo ao abismo sem arrastar comigo o cordão  que me liga ao umbigo do tudo. Esse meu tudo, tão vazio, tão sem sentido, tão luto...

Às minhas costas sinto o hálito das sombras que abandonei nos vãos dos medos, nos ombros o peso de minhas faces largadas à margem do acaso. Sem ninho, sem música, sem rumo, famélicas, esquálidas. Açoitam-me, cobram-me, cobras criadas, minhas servas, meus sangue-sugas, tão sujas... Faces, fases, quases... Nuas...

Elos a tecer correntes, a aprisionar a alma, a escravizar a carne. Não há fuga, há o limbo cada vez mais fundo. Do nada, não tenho o percurso, não tenho o prumo. O nada não me abraça, não me caça. Sou eu entre as grades do futuro, entre os passos sempre, sempre dentro dos mesmos muros... Nem meu uivo, ouço, nem meus cabelos teço, nem meus dedos obedeço...  Fantoche sou, bebo, me alimento, retiro a roupa, ao bel prazer dos segundos que me pinçam e me atiram no colo desse tudo. Toneladas de fios que me ligam ao utero do mundo...


haikais 04











1.
ainda com sono
nos ponteiros do relógio
boceja o tempo

2.
reclama o gato
um punhado de ração
café da manhã

3.
quase onze horas
esparramada na terra
abre-se em pétalas

terça-feira, 17 de abril de 2012

Decreto











  
 na lâmina do desprezo
a sentença, matar o amor
de fome e sede....